E se… existisse um novo caminho?

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Há um ano atrás, eu comecei a comprar flores regularmente sem motivo especial. E há um ano eu venho me cercando de tulipas, rosas, jacintos, cravos, gerberas, phacelias, alstremerias, lavandas, mas nunca, nunquinha, de orquídeas. As orquídeas, coitadas, passavam por mim despercebidas, como fantasmas, porque eu simplesmente acreditava que elas não eram para mim – elas não eram eu. O que as pessoas veem nessa flor sem graça? Eu me perguntava. Ontem, no entanto, eu estava escolhendo flores na banca e essa orquídea cor de uva, um pouco rosada, falou: “Ei, psiu, e se você me levar para casa?”. Eu olhei para ela, e não só reconheci a sua beleza, mas me permiti ser algo diferente do que eu achava que era e assim a trouxe comigo. Para minha surpresa, a sensação de liberdade veio junto, o que pode parecer esquisito visto que não foi nada demais, quer dizer, eu só comprei uma flor diferente, não é mesmo? Mas quantas vezes você se permite ser uma orquídea? Aliás, você se permite ser algo diferente do que você acha que é? Você se permite descobrir novos caminhos dentro e fora de você?

No geral, nós podemos ter uma visão bastante limitada sobre nós mesmos. O engraçado é que a gente acha que sabe tudo… temos tantas certezas… Ao mesmo tempo que essas essas identificações que criamos com objetos, pessoas, referências, sensações podem nos ajudar a construir a nossa identidade, parece que elas também tem a capacidade de nos distanciar daquilo que nós poderíamos vir a ser ou experimentar caso nos abríssemos para as possibilidades. É como se nossos pensamentos estivessem acostumados com o mesmo caminho por anos: quando pensamos em nós mesmos, são as conexões x, y e z que nosso cérebro faz para definir o que somos, ou para dizer o que não somos, e parece que não existir caminho diferente. 

Foi quando eu me vi com uma orquídea na minha escrivaninha que completou um ano do meu trabalho remoto. Quase todo o dia nos últimos 12 meses eu saio para ir ao parque, caminhar pelas ruas, correr na beira do Rio Thames o que fez eu praticamente decorar cada esquina, cada planta, cada matinho, do meu bairro. E, mesmo assim, foi só agora que eu descobri um túnel que passa por debaixo de uma rodovia e corta atalho da minha casa até o rio. Um túnel. A duas quadras do meu apartamento. Levou um ano para eu o descobrir. Quantos túneis você descobre por dia? Quantas vezes você muda o trajeto que você faz da sua casa até seu trabalho, escola, universidade, ou seja lá onde você provavelmente vai com frequência? Esses são os caminhos que repetimos na mesmice e no automático, impedindo a possibilidade de descobrir túneis ou orquídeas nas nossas vidas. 

Mas, como tudo na natureza muda, transforma, transmuta, nós também. Toda vez que aprendemos algo novo – por exemplo, uma nova língua – mudamos nosso cérebro. A boa notícia: ele é extremamente maleável. Se você quiser mergulhar mais sobre esse tema, procure sobre Neuroplasticidade e a capacidade imensa do nosso cérebro em criar novas conexões. E existe uma expressão simples que pode te ajudar à abrir as portas de novos caminhos possíveis. Ela começa com “E se….?” e você pode a utilizar quando você se depara com algo que, por exemplo, você tem aversão. Algumas ideias: “E se eu usar essa mini-saia que eu achei que não é coisa para minha idade? E se eu vestisse essa cor que eu achava que não gostava? E se eu tentar ir por esse outro caminho hoje para ver o que acontece? E se eu escutar aquela pessoa que eu sempre ignoro? E se eu me permitir fazer aquilo que eu acho que não tem nada haver comigo? E se eu me permitir quebrar meus julgamentos e preconceitos e provar um pouco dessa coisa que carrega tantos julgamentos e preconceitos? E se eu fazer isso que estão me sugerindo?”. A mera ação de questionar o seu preconceito e se visualizar na situação que você jurava e tinha certeza absoluta que não tinha nada haver com você, pode se revelar como um abridor de espaços e caminhos nos seus pensamentos e, em última instância, no seu cérebro. Por isso, arrisco a dizer hoje para você: boa sorte com a descoberta das suas orquídeas, túneis e caminhos.

*Image: Vogue, Jul 1941.  Vogue Archive: https://archive.vogue.com

As Crônicas De Uma Mulher Selvagem nasceram da coincidência das folhas, dos sonhos e da potência das escritoras da alma. Se você quer acompanhar as palavras que seguem o instinto, os textos são publicados em Português e Inglês uma vez por mês. Saiba mais sobre elas aqui e assine minha lista de e-mails para receber elas no seu inbox 

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