Uma Deusa No Céu

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Eu estava pronta para tomar meu café da manhã que ultimamente consiste em uma xícara de chá de verde e um livro, mas uma visita inesperada me fez mudar de ideia. Ela me olhou sob o céu anil rosado do amanhecer como se quisesse me contar um dos seus velhos segredos. Ela que nos acompanha desde que o tempo é tempo e o mundo é mundo. Ela que nos magnetiza com sua luminosidade bruxólica. Ela que é tão instável quanto as nossas emoções. Ela que diz para o céu e para a terra em alto e bom tom: calma, é só mais um ciclo de ilusões! E se você já se pegou olhando para ela, magnetizado pelo seu poder, seja quando ela brilha como um disco prateado ou quando ela sorri feito o gato Cheshire, você entende porque é que eu parei tudo o que eu estava fazendo para a admirar naquela manhã. Ela, a lua cheia na minha janela, que eu chamarei aqui de deusa.

Tive um sonho quando ainda morava no Brasil no qual um desconhecido no alto de uma montanha me apontou para uma lua cheia envolta por uma névoa no céu. Eu fitei a lua como se ela fosse uma amiga de longa data, do mesmo jeito que eu a olhei pela janela naquela manhã, com a diferença que a pessoa do sonho me disse: “A Lua é importante. Preste atenção nela”. E com essa frase eu acordei antes dos primeiros ônibus subirem a ladeira da rua lá fora. Honestamente, eu não dava muita importância para a lua. Eu sabia que ela estava lá, como todos nós sabemos – eu já tinha ido em planetário e em aula de ciência – e eu sabia que ela era bonita, mas eu nunca tinha dado importância para ela. Considerando o sonho um chamado, comecei a aventura de prestar atenção na lua e suas fases, e encontrei muito conteúdo dizendo por aí: “observe as lunações”, “filha da lua e das estrelas”, “a lua no seu mapa astral”, “os ciclos da lua e da menstruação”, “rituais para a lua” e todas essas coisas. Só que logo percebi que ninguém estava dizendo que não se tratava só disso. Para entender a lua, não adiantava só a observar ou saber que fase ela se encontrava. Não adiantava ser superficial. Tinha algo a mais, algo óbvio, algo milenar que muita gente estava ignorando e que tinha haver com a história da nossa relação humana com a lua.

Assim cheguei por um acaso de minhas leituras na Vênus de Laussel, o artefato de 25.000 anos atrás (estamos falando do Paleolítico) que se trata de uma mulher segurando com uma mão o seu ventre e com a outra um chifre no formato de meia lua que tem 13 marcas. O número 13 representa o número de noites entre a lua crescente e a lua cheia, e isso sugere que há 250.00 anos atrás existia um reconhecimento da equivalência entre o período menstrual e as lunações transformado em artefato, arte, cultura. A Venus de Laussel pode ser um dos primeiros indícios de reconhecimento de que a vida celestial e a vida terrena são integradas, o que eventualmente pode ter aflorado o desenvolvimento da matemática e da astronomia. E o que ela revela para nós hoje? Primeiro, que a observação da lua pode estar em relação com o que acontece na vida na terra, já que as duas podem ser consideradas partes de um mesmo sistema. Segundo, de que não é na astrologia e nas coisas que são consideradas místicas que a lua foi e é importante. A nossa relação com a lua talvez está na base da nossa construção de consciência, de cultura e de sociedade. 

“Vénus à la corne” de Laussel, 25000 – 20000 avant J.C., calcaire, 54 x 36 x 15,5 cm. Collection Musée d’Aquitaine, Bordeaux, Inv. 61.3.1 (c) DEC, photo L. Gauthier

Não precisamos ir 25.000 anos atrás: é só falar com nossos avós ou bisavós e muitos deles vão nos dizer que tem lua para cortar cabelo, para plantar, para colher – aliás, não se diz em muitas regiões do Brasil que quando uma mulher está menstruada ela está “de lua”? Imagine um tempo onde os calendários se moviam pelo que acontecia no nosso ambiente, quando o relógio do tempo era a natureza. A lua e o sol provavelmente funcionavam como grandes ponteiros no céu que apontavam a direção da organização e do planejamento, seja para a caça, colheita, sustento, casamento, celebração, oferendas, rituais. Os calendários chinês e tibetano, entre outros orientais, por exemplo, consideram até hoje os ciclos da lua na sua matemática. Por isso, o ano para eles começa por volta de fevereiro, numa lua nova, depois que aconteceram 12 ou 13 lunações de 28 dias.

Encontramos então uma variável em relação a observação da lua (e do sol também, mais amplamente da natureza) relacionada a organização e planejamento. É um ótimo recurso para direcionar o nosso tempo e a forma como organizamos nossas semanas, meses e anos, mesmo para aqueles, como eu, que vivem o calendário gregoriano dentro de um apartamento em uma grande cidade de onde mal se pode ver a lua. Ainda assim, dá para usar esse recurso ancestral… Talvez foi por causa das observações e correlações entre ritmo do céu e ritmo da terra ao longo da história humana que criamos um significado para a lua que hoje desagua em misticismo, mas o qual por muito tempo (muito mais tempo do que o contrário) esteve relacionado a nossa existência – e sobrevivência – no planeta terra. Nesse sentido, os ciclos da lua por si só não revelam nada a não ser que integremos eles nas nossas experiências aqui e agora.

Quando o homem pisou na lua, imaginem que diferente perspectiva: não era mais a lua o astro magnético poderoso místico, mas a Terra, e nós talvez nos tonarmos para os olhos daqueles astronautas, os deuses e deusas do sistema que se inverteu nas suas experiências. O poder da lunação está muito mais nas relações e nos significados que nós damos para o mesmo ao prestar atenção nos ritmos do céu junto ao ritmo das nossas vidas e vice-versa. Isso talvez seja dar importância para a lua. E você, já olhou para ela através da sua janela hoje?

*Image: Vogue, Jul 1930.  Bibliothèque nationale de France, département Littérature et art, ark:/12148/bpt6k6542643z

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