Summer Firefly

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Sometimes understanding certain things is not a matter of reason but of feeling and yet we become adults and we ignore the sound of the bells. If you get out of the lateral exit of Hammersmith Broadway Tube Station you will probably see a Church emerging as a gothic patchwork in the landscape, like a very well done collage between the massive Shopping Centre and the flyover. Depending on the angle that you are looking at, it may seem that the tube is piercing through the sacred building which in its turn rises strikingly although suffocated by the concrete all around. If we went to an European medieval city in the 13th century, as the dear Lendinara in Italy where I lived for a while, a Church would never be suffocated, because the tallest and most prestigious structure of the city would be its Campidoglio, where the bell would ring so everyone could see and essentially feel the strength of what is beyond the mundane. The chime of the bell was a symbol for the matters of the spirit.

I haven’t been inside a Church since I arrived in London and actually I avoided them when in Italy, or even in Brazil, perhaps because I have always had a dislike for the history of power, but I am not here to discuss religion belief. The subtlety of my words is in the look, the perception and the sound of what is imbued with sacred. Therefore, we do not need to go to medieval Europe to see temples or bells. The chimes that daily echoed from the little Portuguese Church Nossa Senhora do Bom Parto near my old flat used to wake me up from an automatic dream. I was laying in the hammock from the airy balcony by the sea or working for hours in my master thesis from an improvised office when I heard the sound penetrating the space as an old friend that suddenly was there to remember me that there were mysteries of the spirit hovering around and, in a glimpse, I could catch them.

The professor of literature Joseph Campbell told to Bill Morris about an interesting experience he had with bells. One day when he lived in France he helped the concierge to ring the Capital bell of Chartres Cathedral and he considered that to be one of his life’s great adventures. The sound of the bells worked for him as a reminiscence of what is ritual, supernatural, spiritual, mythological, magical, all the things that in general we are not used to cultivating in the Western modern society. And the remains of the spirit in a city can be many, as the “early settlers of Iceland that established their different settlements in a relationship of 432,000 Roman feet to each other”, because this is a mythological number, the Egyptian pyramids that filled the horizon meaning the conversation between life and death, or the Quechuas that built the city of Cusco in the perfect shape of a puma, the sacred animal that symbolises the realm of the living in their cosmology.

However, once we arrive in a modern city, what is the meaning that we find on its structure? What would catch the attention of our eyes? Probably the tallest and glamorous building that we ought to see will be a financial centre, a shopping, a TV station or a massive office building dressed in smoke glasses. The old St. Pauls Cathedral was the tallest and most imposing architecture of London – and from what I research it was the tallest of the world for a while. Nowdays, the Shard of Glass, a construction of 26 modern floors with offices, hotel and flats is the tallest and most astonishing modern edifice of the city (even though London is global to its teeth, its skyscrapers are not compared to the ones in New York or Hong Kong). Whilst other societies built their cities based on the reminiscences of the spirit and the sound of the bells, now our cities, in general, fabricate a very different type of sacred, the profane consumerism worship. 

One of these days, during one of my morning walks, for the first time I really noticed the Church erected two blocks away from my flat even though it was on the route I did to go to work everyday… they are so forgotten that go unnoticed. I observed the great blue stained glass from its gothic facade portraying kind angels blessing those who walk on the sidewalk and got closer to its lateral gate, where roses, jasmines and bindweeds overgrow in contrast to the oval windows of the Church, when I felt this whistle moving somewhere from inside, travelling into my body, tingling the tip of my fingers, reminding me about what is not material, about what is inside and a little bit outside as well, mysteriously. Then, I walked to the Walled Garden of Ravenscourt Park and realised that there, among the exotic north hemisphere flowers for me, I could also find something sacred. The bells and the constructions may be important to help us remember but the sacred can be found much more in our perception: any place may become a connection to the spirit. While we live a profane life it may do us good to remind about this that roams around, curled up in a part of the invisible, beyond the roads, constructions, technologies and capital, these matters of the spirit that many of us forget and that in a glimpse sparkles, like a firefly in a summer night.

➳ Image: Vogue, Mars 1924.  Bibliothèque nationale de France, département Littérature et art

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Vaga-Lume de Verão

As vezes entender certas coisas não é uma questão de razão e sim de sentir, mas a gente se torna adulto e ignora o som dos sinos. Se você sair na lateral estação de metrô de Hammersmith Broadway, avistará uma Igreja emergindo como um retalho na paisagem, uma paisagem de retalhos, uma colagem muito bem-feita, entre um Shopping Centre imenso e um viaduto onde passa o metrô. Dependendo do ângulo  que você se encontra, pode dar a impressão de que o metro passa dentro da construção sagrada que cresce imponente e ao mesmo tempo quase sufocada pelas estruturas de concreto ao seu redor. Se chegássemos numa cidade medieval européia do século XIII, como a querida Lendinara na Itália onde eu morei algum tempo, uma Igreja jamais seria sufocada, porque a estrutura mais alta e prestigiada da cidade seria o seu campidoglio, onde o sino badalaria para todos poderem ver e essencialmente sentir a força do que está além do mundano. A badalada do sino era um símbolo para as coisas do espírito. 

Eu ainda não entrei em nenhuma Igreja desde que cheguei em Londres e na verdade as evitava quando na Itália, ou mesmo no Brasil, talvez pela aversão que eu tenho a história dos poderes, mas não vim aqui para discutirmos posicionamento religioso. A sutileza do que quero explicar está no olhar, na percepção e no som do que é imbuído de sagrado e nesse sentido não precisamos voltar para o medievo europeu para ver templos e ouvir sinos. As badaladas que diariamente ecoavam da pequena Igreja portuguesa Nossa Senhora do Bom Parto perto do meu antigo apartamento me acordavam de um sonho automático. Largada na rede da sacada arejada da beira-mar sul ou trabalhando por horas na minha dissertação no pequeno escritório, eu ouvia o som invadir o espaço como um velho amigo que de repente aparecia para me lembrar que haviam mistérios do espirito pairando por aí e, num vislumbre, eu os compreendia. 

O professor de literatura Joseph Campbell contou na sua famosa entrevista com Bill Morris experiência semelhante com o som dos sinos. Quando ele morou na pequena cidade de Chartres na França, ele ajudou um dia o padre a badalar o campidoglio da Catedral de Chartres e considerou essa uma das grandes aventuras de sua vida. Para ele, o som do sino funcionava de fato como uma lembrança do que é ritualístico, sobrenatural, espiritual, mítico, mágico, coisas que no geral não são cultivadas na cultura moderna do oeste. E os resquícios do espírito numa cidade podem ser muitos, como os pioneiros da Islândia que construíam seus assentamentos 432 mil roman feet afastados um do outro, porque este é um número mitológico e mágico, as pirâmides egípcias que praticamente preenchiam o horizonte das cidades para significar a conversa entre a morte e a vida, ou os Quechuas que ergueram a cidade de Cusco no formato perfeito do desenho de um puma, o animal sagrado que representa o reino dos vivos na sua cosmologia.

No entanto, ao chegarmos numa cidade moderna, qual o principal significado que encontramos em sua estrutura? Muito provavelmente o maior e mais glamuroso prédio que veremos será um centro financeiro, um shopping, uma emissora de televisão ou um imenso edifício de escritórios de vidros fumê. Em Londres a antiga Catedral de St. Pauls era o prédio mais alto e imponente da cidade – e pelo que pesquisei, do mundo. Hoje, o Shard of Glass, um prédio de 26 andares de modernos escritórios, hotel e apartamentos que aponta para o céu como um estilhaço de vidro é o edifício mais alto e mais surpreendente da cidade (apesar de Londres ser uma cidade global seus arranha-céus não se comparam em tamanho àqueles de Nova York e Hong Kong). Enquanto algumas sociedades elaboravam suas cidades baseadas nas reminiscencias do espírito e nas badaladas dos sinos, hoje as nossas cidades no geral fabricam um tipo muito diferente de sagrado, o dessacralizado culto ao consumo. 

Numa das minhas caminhadas matinais pela primeira vez eu realmente notei a Igreja erguida a duas quadras do meu flat mesmo que ela ficasse no caminho que eu fazia todo dia para o trabalho… elas são tão esquecidas que passam despercebidas. Ao observar o grande vitral azulado da sua fachada gótica, representando anjos bondosos que abençoam quem passa, aproximei-me do seu muro lateral, entre as rosas e trepadeiras de jasmin que crescem em contraste com suas imensas janelas ovais, e senti esse assovio se mover por dentro, percorrendo o corpo, formigando a ponta dos dedos, lembrando-me do que não é matéria, do que está dentro e um pouco fora também, misteriosamente. Depois, caminhei até o jardim murado do Ravenscourt Park e conclui que ali entre as flores do hemisfério norte para mim um tanto quanto exóticas eu também encontrava algo de sagrado. Os sinos e as construções talvez sejam importantes para nos ajudar a recordar, mas o sagrado se encontra muito mais na nossa percepção: qualquer lugar pode ser tornar uma conexão para o espírito. Enquanto vivemos uma vida profana pode fazer um bem lembrar disso que vaga misteriosamente por ai, enrolado numa parte do invisível, para além das estradas, das construções, das tecnologias e do capital, essas coisas do espírito que muitos de nós esquecemos e que, num vislumbre, cintila como um vaga-lume numa noite de verão.

➳ Image: Vogue, Mars 1924.  Bibliothèque nationale de France, département Littérature et art

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