O Guarda-Roupas de Plátanos / / The Wardrobe Made of Leaves

click here and read in English

O Guarda-Roupas de Plátanos

Observo as duas árvores imensas em frente a janela do pequeno prédio de tijolos onde moro. A mesma espécie se esparrama pela minha rua, pela quadra, pelo bairro de Hammersmith and Fulham, por West London, pela beira do Thames e finalmente por toda a cidade. No Brasil, chamamos elas de Plátanos, aqui, são chamadas de London Plane – nome compreensível não é mesmo. A primeira crônica que escrevi para essa série de crônicas de uma mulher selvagem resultou das folhas dessas árvores terracota que caiam por todo o lado no outono. Era novembro, as folhas e os sonhos se comunicavam comigo. Depois chegou o inverno e não haviam mais folhas, as centenas de árvores despontavam galhos secos numa paisagem um tanto melancólica. Agora, pequenos pontinhos verdes nos chumaços de galhos desengonçados renascem e se transformam da noite para o dia novamente em pequenas folhas. Mas calma que não falaremos aqui sobre botânica.

A segunda vez que eu estive em Veneza eu derretia dentro de um shorts colorido e um top cor de rosa pink, perdida entre as ruelas cinematográficas e a multidão de turistas. Havia ganhado de presente de uma pessoa fantástica uma estadia num hotel vicinissimo da Piazza San Marco, o que fazia com que eu atravessasse uma rua de lojas de alta costura toda vez que precisava voltar para o Hotel. Eu olhava as vitrines sem entender muito bem o que aquilo significava, revisitando as poucas propagandas da Vogue  que eu um dia folhei. Tive a mesma sensação em Verona, Turim, Londres… seja  na Piazza San Carlo, em Covent Garden ou na rua da casa da Giulieta… as lojas de luxo me intrigavam. Quando entrei na Selfridges pela primeira vez, era época de Natal, a Oxford Street estava iluminada, eu estava suada porque havia pedalado de bicicleta o dia inteiro, com minhas roupas remendadas, meu tênis do outlet, meu capacete balançando no gancho da mochila impermeável, entrando nos diversos compartimentos sofisticados, caminhando pelos tapetes macios, descobrindo que existem mais marcas de sutiã de alta costura do que eu pude um dia imaginar – se é que eu um dia imaginei.

Eu definitivamente sempre gostei de moda, mas o “mundo fashion” era distante da minha percepção de realidade. Na maior parte da minha vida eu usei roupas de segunda mão, como quando eu encontrei uma bolsa imitação da Louis Vuitton no lixo da frente da minha kit net universitária e a usei por um tempo. Eu também passei pela minha adolescência julgando tudo que derivava do que eu categorizava mentalmente como o mundo das “patricinhas” numa espécie de aversão, talvez porque eu era alternativa demais e não me conformava com o “papel fútil das mulheres na sociedade”. Mas naqueles dias, entre essas lojas, essas vitrines, essas prateleiras, nos corredores da Selfridges, eu me perguntava sem julgamento, o que significava realmente possuir uma bolsa de 10 mil euros? Eu era uma antropóloga percebendo um outro mundo dentro do mesmo que eu vivi até então.

Através dessas palavras você talvez esteja supondo que eu seja crítica, intelectual, naturalmente poética, e se você conhece minha história mais afundo, também  pode me ver como uma mistura de rock n roll, hippie e feitiçarias. Embora no tempo livre dos meus últimos dias de folga eu não finalizei o livro da Virginia Wolf que estou lendo, escrevi poemas, assisti a documentários ativistas, meditei sem parar ou aprimorei meu francês. Não. Eu assisti dezenas de vídeos com o objetivo de entender sobre moda de alta costura. Eu pesquisei tanto que eu ia dormir visualizando tecidos, estampas e modelos, até fazer todo sentido andar pela Sunset Street em direção a Piccadilly Circus. E enquanto eu pesquisava, eu sentia essa sensação estranha de eu mesma me julgar. O que afinal eu estava fazendo?

Do espaço que se abre no meu apartamento, quero dizer que é natural morrer simbolicamente durante a vida. As árvores na frente da minha janela me contam isso todo dia. Suas pequeninas folhas verdes balançando transformam a vista que tenho daqui. Mas também a rua se transforma, a paisagem antes vazia se preenche, pássaros cortam os galhos, a árvore se veste de outra cor e renasce tudo ao seu redor. Existe uma potência de renascermos quando descobrirmos que o que parecia ser superficial esconde profundidade. Eu mesma sou uma pessoa cujo corpo, personalidade, hábitos e até cidadania renasceu. E por isso quando cheguei em Londres com uma mudança de vida que cabia dentro de uma mala de rodinhas tive a necessidade de comprar roupas para sobreviver ao frio, aos novos trabalhos, ao novo estilo de vida. Com o baixo orçamento que tinha frequentei lojas de departamento onde as roupas são menos de 10 libras e podendo comprar muitas coisas visto os preços eu não consegui comprar quase nada, simplesmente porque eu não suportava a ideia de ter que vestir materiais sintéticos que desbotariam em um mês, ou que eu teria que jogar fora depois de uma estação.

Na semana passada eu abri meu guarda-roupas que é uma pequena porta estreita embutida na parede do pequeno flat que me acolhe com tanta paz e constatei que eu continuo precisando comprar roupas novas e continuo não querendo comprar o que é descartável. As novas folhas das árvores, balançando para lá e para cá, enfeitam como jóias o céu cujos raios de sol caem sob os telhados ingleses. Eu preciso de novas folhas também! Vestir meu tronco, exibir meu vigor, porque ainda há vida nesse caule. Novamente, o espaço. Muito espaço se ampliou dentro do que eu pensava ser superficial. Não é curioso? Esse feito contrário? Uma vez que eu estudei moda de luxo ao invés de cair no tobogã da superficialidade, meus pensamentos deram a volta no consumo desenfreado e descartável. Entender a lógica por detrás da indústria das marcas de luxo me fez entender como renascer um guarda-roupas sustentável e compreender que o consumo de moda é feito de distrações caso você não saiba exatamente o que precisa, o que é clássico, os tecidos e materiais que são duráveis, consistentes. Isso quer dizer que agora meu maior sonho é possuir uma bolsa Sac de Jour legítima? Muito provavelmente não. Mas se daqui a alguns meses, se você me encontrar na rua e achar que eu sou outra, não se engane, porque de tempos em tempos, nossas folhas renascem.


The Wardrobe Made of Leaves

I observe the two giant trees in front of the brick building where I live. The same species spread out across my street, Hammersmith and Fulham, West London, Thames riverside and finally across all the city. In Brasil we would call them “Plátanos”, but here they are called “London Plane” – comprehensible name, don’t you think? The first chronicle that I wrote for these series of chronicles of a wild woman was a result of the leaves from these terracotta trees that last Autumn fell all over the place. It was November, the leaves and the dreams communicated with me. And then winter arrived and there were no more leaves, there were just dry twigs composing a melancholic landscape. Now, little green dots in the gangling bunches of the twigs are being reborn and becoming from night to day little leaves again. But wait a minute, we are not talking about botanics here.

The second time that I have been in Venice I was literally melting inside a colourful shorts and a pink top, lost in the cinematographic streets crowded with tourists. I had won an amazing gift from an amazing person: a booking in a hotel besides Piazza San Marco. It made me cross a street full of high fashion stores every time that I had to come back to it. Those shop windows… I couldn’t understand what they actually meant. I looked at them revisiting the Vogue propagandas I once leafed through. I had the same feeling in Verona, Turin, London… in Piazza San Carlo, Covent Garden or close to Giulieta’s House… the luxury stores intrigued me. When I entered Selfridges for the first time, it was Christmas time, Oxford Street was  glowing by its lights, I was sweaty because I had been cycling all day long, with my amended clothes, my outlet sneakers, my swinging helmet hooked in my waterproof backpack, entering into the sophisticated corridors, walking over the soft tapestries, discovering that there are more luxurious bra brands than I could have ever imagined – if I had ever imagined.

I always liked fashion, but the world I was seeing there was distant from my perception of reality. Most part of my life I used second hand clothes – as when I found inside a bin a fake Louis Vuitton bag in from of my university kit net and used it for a while. Also, through my teen years I judged everything that came from what I categorised as “girly girl universe” with a feeling of aversion aversion, perhaps because I was too alternative and couldn’t stand the “superficial role woman played in society”. But within those days, among those stores, those shop windows, those shelves, those corridors, I asked myself without any judgment, what did mean to possess a ten thousand pounds bag? I was an anthropologist realising the existence of a new world within the one I have been living on until then.

Reading these words you may think that I am intelectual, critic, naturally poetic, and if you know my history you can also see me as a mixture of rock n roll, hippie and witchcraft. However in my past few day offs I didn’t finish the Virginia Woolf book that I am reading, wrote poems, saw activist documentaries, meditated or studied French. No. I watched dozens of videos with the aim to understanding more about luxurious fashion. I researched so much that I went to sleep visualising fabrics, prints and models, until it made all sense walk along Regent Street to Piccadilly Circus or explore the stores in MyFair. Although while I researched, this strange feeling of me judging myself emerged. What was I doing?

From the space that mysteriously opens within my flat I would like to say that is natural to symbolically die while living. The trees in front of my window tell me that everyday. Their tiny little green leaves swinging from side to side transform the view I have from here, but also  transform the street, the landscape that fills itself, the birds that start crossing the branches. The trees dress theirselves up in a new colour to rebirth everything around them and I find that there is a power of rebirth when we discover that what seemed to be superficial hides profound depth. 

I am a person myself whose body, personality, habits and even citizenship was reborn. That for when I arrived in London with a home moving that fit inside a wheel bag, I needed new clothes to survive the winter, the jobs, the new way of life. The low budget that I had made me go to popular department stores where clothes are less than ten pounds. Even though I could buy many things due to the accessible price, I bought almost nothing, simply because I couldn’t stand the idea of wearing synthetic materials that would loose the colour within a month or that I would have to throw away after one season.

Last week I opened my wardrobe which is a little narrow door built-in in the wall of the flat that shelters me with so much peace and I realised that I still need new clothes and I still don’t want what is disposable. The new leaves from the trees, swinging back and forth, garnish as jewellery the sky whose sun rays fall above the British rooftops. I need new leaves as well! I need to wear my stalk, because there is still life within it! Again, space. A lot of space amplifies in what I thought to be superficial. Isn’t it curious? The reverse effect? Once I studied fashion instead of believing it was just superficiality, my thoughts bypassed the disposable consumerism. Understanding the logic behind the luxurious brands made me understand how to reborn a sustainable wardrobe and comprehend that the fashion consume is distraction in case you don’t know exactly what you need, what is classic, what fabrics and materials are consistent. Does that mean that now my biggest dream in life is to posses a legit Sac de Jour? Probably not. But, if some months from now, you find me on the street and think that I am another person, don’t fool yourself, because from time to time, our leaves are reborn.

J.P.A.

As Crônicas De Uma Mulher Selvagem nasceram da coincidência das folhas, dos sonhos e da potência das escritoras da alma. Se você quer acompanhar as palavras que seguem o instinto, os textos são publicados semanalmente por aqui. Lembre: a vida selvagem dá sustentação de dentro para fora.

ASSINE AQUI E RECEBA OS TEXTOS NO SEU EMAIL

One thought on “O Guarda-Roupas de Plátanos / / The Wardrobe Made of Leaves

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s