Uma Memória Rodopiante

Novamente estou no alto de Hampstead Heath, não exatamente agora, já fazem umas semanas, no momento caminho na minha cozinha para lá e para cá. Mas a memória é poderosa, posso ver a cidade de um lado suspensa por nuvens negras carregadas de chuva, recortando a London Eye, a Tower Bridge, os prédios modernos de South Bank. A sensação é de que o céu vai desabar. Porém, do outro lado, meus olhos cintilam por uma paisagem lúdica, sonhadora, desenhada por uma colina que mais parece uma pitoresca paisagem italiana – é como se eu tivesse no belvedere de Verona vendo prédios de Roma. Ao meu redor, um gramado verde que desemboca numa pequena floresta de carvalhos e outras árvores regionais contrastam com a parte do céu onde os últimos raios de sol se expandem para se mesclar com o resquício de azul celeste que se espalha entre as nuvens âmbar. Estou com os pés descalços, sentindo o vento que vem do Norte arrepiar minha nuca, a força que vem da terra gelada acalmar meu corpo, o que resta de por do sol cultivar algum sonho e a tempestade que logo vai vir me despertar. 

Não há memória mais precisa em sua metáfora que possa traduzir o que venho sentindo no período do lockdown. A tempestade irrompe sobre a cidade, sobre as vidas, sobre a esperança, encharca, confunde, amedronta, ameaça o estado normal das coisas. Mas uma beleza que muitos não podem ver raia do outro lado, onde a pureza e a inocência dançam como pequenas fadas sob os gramados viçosos do parque, sob os carvalhos e as colinas de Romeu e Julieta, antes da noite que calada também se aproxima. Enquanto isso, eu estou entre os dois lados, o terror e a beleza, cravando meus pés na terra, uma hippie sem vergonha, porque preciso encontrar a estabilidade de uma montanha, preciso estar firme como as árvores centenárias, no meio, entre a tempestade e o sonho, entre o real e o imaginário, entre cidades que apesar de parecerem a mesma, são distorções do olhar, da memória, do ponto de vista. 

Agora na minha cozinha, lembro dessa cena, com saudades da liberdade de andar lá fora, embora contraditoriamente meu apartamento se expande, alonga-se, cresce, porque do olhar da beleza uma liberdade emerge aqui dentro – a liberdade é um estado de alma. E vendo isso, sinto compaixão por quem está lá, embaixo da tempestade, por quem não pode chegar a esse tipo de conclusão, por séculos de aprisionamentos – da mente, do sistema, do corpo, das obrigações, da falta de amor – por quem não pode ver que o céu é imenso e se transforma.

E tendo dito isso, tendo situado vocês nessa pintura memória, nessa metáfora do agora, gostaria de ampliar a reflexão de algo que já contei por aqui. Nesse estado que me encontro, que posso chamar de estado do entre, encontro refúgio e clareza nas escrita, no ócio, na manhã que passa lenta, ao som de bossa nova lo fi. E recomendo: há poder terapêutico nor ato de escrever. Não estou falando de escrever para se tornar escritor, para treinar redação, dissertação, narrativa. Também não falo da escrita que usamos para fazer um comentário naquela foto, uma legenda naquele post ou uma mensagem para o grupo da família. Estou falando de escrever como terapia. 

Existe uma palavra em inglês que define esse ato: journalling, traduzida em algo como “notas de um diário”. Pode parecer pré-adolescente, lembrar Doug Fannie, mas a ideia é muito simples, acompanha nossos imaginários desde crianças e é usada por certas abordagens da psicologia. No papel, no computador, no celular, basta escrever sobre o dia, sobre o que se sente, sobre o que esta incomodando, sobre o que brigou, sobre o que alegrou, sobre o que entristeceu, sobre porque me sinto tão confusa, sobre as memórias – como a que eu acabei de descrever no alto de Hampstead Heath (talvez essas crônicas sejam afinal um journalling refinado e compartilhado). Deixar as palavras virem, deixar o que tiver que vir vir sem medo de errar, porque no seu diário não existe errado. O que existe é uma conversa com você, com suas lembranças, seus sentimentos, seus pensamentos.

O interessante sobre praticar o journalling é que quando você escreve as palavras vão ajudando a organizar determinada situação, relação, sensação, a mente passa a se perceber num exercício intelectual de auto-analise no qual no fim das contas, emergem respostas – nem que seja um claro “não sei te dizer agora”. Ajuda a enxergar além da tempestade, subir as colinas, bater asas de fada, compreender que existe um outro lado e que eventualmente você também se situa no entre. Eu recomendo essa prática, ou qualquer outra que ajude a encontrar a estabilidade que a mente necessita antes que a noite chegue. Naquele dia em Hampstead Heath, precisei ficar de pés descalços. Como diz Chico, amanhã há de ser outro dia, mas mesmo assim talvez ainda seja preciso explicar a nós mesmos, nós mesmos.

J.P.A.

As Crônicas De Uma Mulher Selvagem nasceram da coincidência das folhas, dos sonhos e da potência das escritoras da alma. Se você quer acompanhar as palavras que seguem o instinto, os textos são publicados semanalmente por aqui. Lembre: a vida selvagem dá sustentação de dentro para fora.

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