O Grito Do Invisível

Como escrever uma crônica nesse momento? Pergunto para minhas cobertas acolhedoras. De repente, o que vivo esta restrito a quatro paredes, a lives de instagram e youtube, a conversas em video, ao meu flat alugado. Mas eu não quero escrever sobre medo, sobre desespero, sobre restrição, sobre colapso, sobre injustiças sociais, sobre morte. Tampouco quero maquiar a vida com otimismo esotérico barato. Eu quero escrever sobre o que o cacique dos Kayapó me alertou no começo do ano no auditório apertado localizado no coração de Londres: terra planeta.

Antes da pandemia chegar aqui na Inglaterra eu estava sentindo no ar um agito de férias se aproximando, de vazio que estava chegando. Essa sensação me lembra quando estava nos últimos dias de aula no colégio e as salas de aula pareciam diferentes, eram envoltas por qualquer coisa que já não é mais, por qualquer ordem que se perderia nos meses sem aula. Então um dia acordamos e percebemos que vivemos o implanejável, o impossível, o improvável. Ficamos em pânico por dentro, porque não temos o controle, não podemos ter o controle, e o controle que pode nos fazer sentir melhor vem do estado, a instituição de interesses duvidosos, para dar coesão ao caos que se prolifera embaixo de uma capa de invisibilidade. 

O tempo passa, o tempo e as ideias, as ideias e as noticias, as notícias e os videos, estamos todos na espera, na espera de um cuidado, na natureza indomável, do que pode um dia se render. Será que realmente poderemos continuar a dizer que somos os deuses da chuva? Somos a raça no poder? Será que poderemos continuar a pensar que estamos 100% preparados e iremos continuar a pousar na lua, construir edifícios em marte, fazer de Jupiter nossa nova plantação de milho modificado? Será que estamos na marcha ao futuro, ao progresso que silencia o passado? 

Afinal o que aconteceu é antigo, não importa, não é mais necessário, entender por exemplo que a gripe espanhola não nasceu na Espanha. E acima de tudo compreender que muitas vezes após tudo isso, pós capitalismo, pós socialismo, pós moderno, pós vazio, estamos todos aqui, contemplando esses momentos, momentos de progresso em colapso, de homem que marcha sob a terra, de  homem que conquista a terra, de homem que controla a terra. Mesmo com todas essas grandes conquistas, estas nações poderosas, estes navios com dispositivos atômicos, esses satélites artificiais, essas telefones de micro chip, mesmo com toda a parafernália, a televisão que se liga o dia todo, o computador que atualiza o mundo financeiro, o dinheiro que e invisível e migra entre continentes, nos vemos na beira do absurdo, quando papel higiênico falta nas prateleiras do supermercado, quando tem gente que corre em pânico para o abismo,  quando quem está no poder só consegue usar a palavra economia, quando quem não está no poder se apega aos privilégios, quando quem é ignorante mantém a desinformação, porque um pequeno ser vivo, uma minúscula vida invisível, resolveu mudar tudo.

Honestamente, eu sempre pensei que a primeira crise global seria relacionada a falta de água, a mudança climática, ao plástico que atola os oceanos, a comida que também é de plástico. Mas nós, enquanto natureza, somos sofisticados e aconteceu que a primeira crise chegou na saúde, nosso maior recurso, nossa fonte inesgotável, nosso meio de existência, como que nos obrigando a rever o que é prioridade. A vida é prioridade. A natureza que achávamos que controlávamos brinca nas estruturas de governança, na política que queremos para a consciência, a consciência que não é minha, não é sua, é de todos, é planetária. 

O que acontece tira o véu da normalidade ao fazer questionarmos o que é normal. Será mesmo que é o mercado que pode nos salvar quando o que mais precisamos é conhecimento? Ninguém mais sabe o que esperar, entre o pânico e a inércia, entre a sabedoria que em parte pode morrer com os mais velhos, entre velhas estruturas que se afogam, se destroem por um pequeno ser vivo. Um ser vivo que apesar de invisível grita com clareza, eu posso ouvir, grita pelos cinco continentes, você pode ouvir? É o mesmo grito que o cacique calmamente expressou para mim e para um monte de gente no começo do ano em sua língua nativa, embora há muito mais tempo o expresse: que política queremos para a saúde de nós todos, terra planeta? E assim, como disse, quando menos espero, finalizo uma crônica, uma crônica para esses tempos, porque o extraordinário que corre no nosso sangue é o improviso. A vida quando é viva se adapta.

J.P.A.

As Crônicas De Uma Mulher Selvagem nasceram da coincidência das folhas, dos sonhos e da potência das escritoras da alma. Se você quer acompanhar as palavras que seguem o instinto, os textos são publicados semanalmente por aqui. Lembre: a vida selvagem dá sustentação de dentro para fora.

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