Uma Londres Selvagem

E se você pudesse conhecer um outro lado de Londres? A crônica de hoje é talvez menos poética e mais informativa. Ela fala sobre os lugares mágicos que encontrei aqui, embora comece com um alerta, porque talvez você se decepcione um pouco com minhas dicas. Não sei se são as melhores referências se você se considera um turista que está se aventurando apenas para ter a melhor foto, saber superficialmente sobre a história de onde está, comprar badulaques para dizer para todo mundo “eu estive lá”, consumir capital cultural como se fosse mais um troféu na sua prateleira de experiências ou simplesmente para você que prefere uma vida artificial. E eu digo isso me esforçando de coração para não julgar caso você seja esse tipo de turista, já que a mente insiste em querer ter razão sobre o ponto de vista do outro: é só um alerta sobre o conteúdo desse texto a fim de evitar possíveis frustrações.

Quando eu imaginava Londres antes de morar aqui as imagens que saltavam nos meus pensamentos eram Piccadilly Circus, Big Ben, London Underground e ônibus vermelhos de dois andares atravessando as ruas, além de algumas imagens aleatórias como família real, princesa Diana, Churchill, Abbey Road, chá e chuva. Em Londres tem tudo isso e muito mais – a arquitetura da cidade impressiona e prédios como o do British Museum, do Royal Academy of Arts e do Albert Hall te deixam boquiaberta. No entanto, há uma outra Londres nessa Londres que faz o roteiro dos turistas. Existe uma Londres selvagem – vocês já perceberam como eu amo essa palavra?

Muita gente vem para cá e conhece o Hyde Park, o Kensington Gardens, o Green Park e até os jardins do Regent’s Park, que são parques centrais na cidade, perto de pontos turísticos como o Buckingham Palace e o Museu de Cera. São parques lindos, sem dúvida. Mas a magia começa se você como eu ama estar imersa em paisagens verdes e sai desse circuito. 

Richmond Park

Descobrimos esse tesouro num domingo cinzento pela manhã e ensolarado a tarde, um dia que se abriu como uma flor. O parque não pode ser considerado um “parque” e sim uma reserva nacional de preservação da vida selvagem e por isso é imenso. Imenso. De bicicleta eu conheci menos que a metade da área, imagina a pé. Lá é possível encontrar famílias de veados saltitantes porque era um parque usado para a caça real criado no século XVII. Na verdade, é um site que faz parte do esquema da Inglaterra Histórica, ou seja, um parque “tombado”.

É possível também andar de canoa ou pedalinho nos lagos, caminhar por longos quilômetros de planícies, florestas fechadas, passar por riachos e ainda dar uma volta no Isabella Plantation, um jardim que comporta uma exibição de azaleias, as quais florescem entre Abril e Maio. Uma vez perdido lá dentro, você não acredita que está numa das cidades mais cosmopolitas do mundo. O melhor: tudo público e gratuito. 

Minha sugestão é: se for inverno, leve um chá numa térmica, luva, gorro e um bom casaco. Se for primavera/verão, leve um kit para um pique nique. E independente da estação, vá de galochas ou um sapato que de pra sujar – estamos ainda em Londres.

Hampstead Heath

A primeira vez que estive lá achei que estava no bairro do Castelo Ra Tim Bum. As casas de Hampstead Heath são fantásticas, quase teatrais. Procurei onde Aldous Huxley morou iluminada pelo fim de tarde e inspirada pelo risco da lua nova no céu. As casas que contornam o parque que tem o mesmo nome do bairro dão uma aura misteriosa para a região. O parque pode ser recortado em várias porções, que eu explico: 

🍂Na região leste você encontra uma versão do parque mais “civilizada”, com passeios, caminhos, banquinhos e lagos. Ali existem os swiming ponds, lagos que são abertos ao público para mergulho. 

🍂Na região norte você encontra a Kenwood House, uma residência histórica do século XVII que exibe um acervo de arte pomposo – Rembrandt está lá – e o que eu mais gostei: uma cozinha histórica de 300 anos de idade. 

🍂Na região leste você encontra a joia preciosa do parque, na minha opinião. Chama-se “The Hill Garden and Pergola” onde há um pergolado construído a partir de 1905. Dá para caminhar dentro dele de tão gigante que é. Perto dali também você encontra árvores centenárias e uma parte mais selvagem do parque, um bosque que cresce naturalmente.

🍂Na região norte você encontra o Parliament Hill, uma das regiões mais altas daqui da cidade. Dali dá para ver o horizonte urbano, da London Eye até West London. 

Tudo público e gratuito – inclusive a casa Kenwood. Minha sugestão: novamente, use sapatos que podem sujar. Caminhe muito pelo parque mas não deixe de dar uma caminhada pelo bairro também, o contraste das casas fantásticas com o verde das florestas do parque é uma experiencia única. Se tiver que escolher apenas um lugar para conhecer, sugiro a Pergola. 

Kew Gardens

Minha última descoberta, o Jardim Botânico Real. Ele fica muito perto do Richmond Park e talvez faça mais parte de um roteiro turístico tradicional. Ali são cultivadas milhares de espécies do mundo todo para estudo científico dentro e fora de estufas, que são incríveis – especialmente a Palm House construída no final do século XIX para abrigar as plantas tropicais das Américas, Ásia e África. Uma das áreas que mais gostei foi a Woodland Glade, uma pequena floresta de sequoias gigantes da América do Norte, próxima do Treeptop Walkaway – um caminho no topo das árvores.

Lá dentro tem algumas praças de alimentação e lojinhas para turistas. A entrada não é gratuita – o valor do ingresso gira em torno de £16,50. Mas o Barbican Conservatory, do outro lado da cidade, que é uma estufa com plantas para estudo cientifico é gratuito e pode ser uma opção. 

Uma das entradas do Kew Gardens fica próxima a Orla do Rio Thames, que é outro lugar fantástico para passear, caminhar ou andar de bicicleta. A Orla é um caminho embaixo de árvores que contorna o rio. Sugiro caminhar do Kew Gardens até a Hammersmith Bridge, onde dá para atravessar e ver o por do sol em um dos pubs na beira do rio. Se a Lua tiver cheia, mais mágico ainda.

A Crônica da semana que vem vai fazer parte da Newsletter da minha amiga Isadora Machado. Para receber o conteúdo lindo dessa peixa, assine aqui. Falaremos sobre o mundo dos sonhos.

J.P.A

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