O Templo, O Retiro e Os Budas

Este não é o tipo de texto turístico, apesar de um diário de viagem e apesar de que você pode ir ao Templo Budista Khadro Ling localizado na cidade de Três Coroas (RS) como turista sem problemas. Já eu fui como praticante, num retiro chamado “iniciação em buda Akshobia”. Vou contar para vocês um pouquinho dessa experiência e ~ superficialmente ~ o que aprendi sobre o budismo tibetano vajrayana.

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A viagem

Em Floripa chovia muito enquanto eu arrumava as malas e me deparava com sapos em vários lugares – na rua, na calçada, no quintal e até em cima do meu tapete, porque minha gata adora me presentear com seus animais peçonhentos. Os sapos tem haver com o início dessa viagem porque simbolicamente representam um nível de purificação ~ do corpo ~ dentro de algumas cosmologias e eu me preparava justamente para ir a um lugar de intensas purificações. O Templo Budista Chagdud Gonpa Khadro Ling era meu destino. Ele se localiza na pequena cidade de Três Coroas, na Serra Gaúcha, entre Porto Alegre e Gramado e foi fundado em 1995 por Sua Emª Chagdud Tulku Rinpoche. Hoje é gestado por sua esposa, Chagdud Khadro, que eu tive a imensa alegria e honra de conhecer.

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Estrada bonita de Floripa até Porto Alegre ❤

Para ir de Floripa até lá, uma pequena jornada: fui até Porto Alegre de ônibus, depois peguei uma rota até Três Coroas e enfim subi de taxi as montanhas onde fica o Templo, acompanhada de uma amiga mais que especial e de um taxista amigável. A jornada durou praticamente um dia inteiro e quando eu cheguei enfim no Templo o céu estava escuro e as pessoas agitadas ~ precisávamos fazer o check in no retiro e conhecer as regras e particularidades do lugar.

Minha amiga que conhece muito bem o sítio me levou dar uma volta, depois que eu deixei minhas coisas no simpático quarto de retiro da casa chamada “Amitaba”. Quando dávamos uma volta de bençãos ao redor do templo principal, uma aranha caranguejeira do tamanho de um imenso girassol cruzou nosso caminho ~ outro sinal de purificação, porque aranha significa em outras cosmologias a limpeza mental. Segundo minha amiga, ela nunca havia visto uma aranha daquela de bobeira no meio do nada e nós pacificamente contornamos suas patas peludas para continuar o passeio noturno.

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O alojamento que fiquei. Existem outros, inclusive uma “Casa de Retiro” mais afastada.

Voltei para meu quarto exausta da viagem, tomei um banho e deitei confortável na cama. Por alguma razão, resolvi ajeitar o travesseiro, o que fez uma pequena aranha sair assustada. Ao invés de ficar assustada, eu dei risada, porque era mais um sinal de purificação pulando na minha frente. No outro dia eu ia entender.

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dia 1

O primeiro dia de retiro começou comigo pulando da cama antes das 6 horas da manhã para me juntar à prática da manhã no Templo, é como se fosse a prática diária de lá. Eu não tenho iniciação nessas práticas ~ para entender a ideia de prática, é como se fosse um “exercício de orações com mantras” ~ mas é uma experiência muito gostosa, ir acordando com os sons da língua tibetana.

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Templo “principal” iluminado pelos raios de sol da manhã.

Depois, fui tomar café da manhã num espaço aconchegante, com um cardápio bem próximo de uma dieta vegetariana. Se você tem uma dieta especial, é melhor levar sua comida, porque o espaço não é um hotel, inclusive a maioria dos trabalhos são voluntários. Conheci algumas pessoas que moram lá no complexo do Templo, parece que existem aproximadamente 50 moradores na região, alguns em casas coletivas outros em casas mais afastadas.

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Espaços aconchegantes e simples, sempre coletivos.

Então dei algumas voltas pelos espaços e fui conhecer o Templo do Guru Rinpoche, construído a pouco e extremamente belo. O retiro começou na metade da manhã, com ensinamentos pela Chagdud Khadro, e não existem palavras para a descrever aqui. O budismo tibetano funciona através de lamas, que são uma espécie de professores espirituais que transmitem, compartilham e constroem conhecimentos com o objetivo de ajudar o caminho espiritual de cada praticante. Assim, eles dão continuidade a linhagem de ensinamentos, mantendo-os vivos e em circulação, oral e escrita.

Khadro contextualizou um pouco do Buda Akshobia, que iríamos receber a iniciação pela tarde e nos convidou a participar de uma prática de Votos no outro dia. Foram ensinamentos preciosos e eu não me sinto nem a vontade e nem com legitimidade para compartilhar eles com vocês, por isso super recomendo para quem tem interesse ir a algum retiro ou ensinamento em alguma sanga ou templo budista ~ existem vários pelo Brasil.

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Representação do Buda Akshobia.

Depois de um almoço com bastante tofu ~ maravilhoso ~ participei da iniciação, o momento mais importante do retiro. Ali eu fui ensinada como fazer a prática de Akshobia, uma espécie de “metodologia” ancestral da linhagem do budismo tibetano vajrayana para criar espaço na mente e liberar o vórtex de ódio que ela constantemente impõe para si mesma. Uma purificação mental necessária, que estamos todos precisando em tempos como esse, não é mesmo? As meditações do budismo proporcionam um estado de paciência e foco, que seria um dos antídotos para a raiva e o ódio.

No final da tarde, aproveitei para fazer alongamentos com um amigo e fomos visitados por um grande sapo ~ não me diga! O sol se põe lindamente lá, e em breve terá uma cafeteria com um visual digno de selfies e comidas gostosas. Lá se janta muito cedo, e, como no outro dia eu acordaria as 4h30, dormi mais cedo ainda.

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 dia 2

O dia começou escuro, porque as 5h da manhã eu estava dentro do Templo para fazer meus primeiros votos. A ideia era se abster de certas coisas por 24 horas, como comida, sexo, drogas, roubar, matar, entre outras categorias. Isso tudo para despertar um estado de atenção ao longo das horas e também compaixão pelos outros seres, como pelos que morrem de fome todos os dias.

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A compaixão começa em atos simples, quantas formigas não matamos simplesmente por nossa desatenção? Estas placas são espalhadas em vários lugares.

O retiro voltou só as 9h da manhã, quando iriamos aprender ainda mais a metodologia de Akshobia e receber mais ensinamentos. Eu aproveitei para caminhar pelo sítio novamente, desta vez sozinha com meus pensamentos, percebendo as estátuas e as construções como prolongamentos da vida e da mente humana. Os espaços do Templo são os labirintos mentais ornamentados, uma riqueza de símbolos que, depois que você passa a entender e principalmente ~ experienciar ~ mais e mais da cosmologia budista, tornam-se multidimensionais, adquirindo outros significados.

Já pela noite, aprendemos a fazer mudras, que são gestos simbólicos e sagrados feitos com as mãos. Como se as mãos pudessem também estar dentro da meditação e os gestos fossem espaços meditativos no corpo.

Eu estava com bastante receio de tomar os votos, especialmente por ter que ficar sem comer depois do almoço até no outro dia pela manhã. No fim das contas, a experiência foi muito mais interessante do que eu imaginava e ainda bem que eu resolvi fazer os votos com medo mesmo. Pude sentir minha atenção mais presente e consciente. Demorei um pouco para dormir, porque a barriga roncava, mas tive uma noite de sono maravilhosa.

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dia 3

Na primeira hora da manhã, devolvi meus votos, dedicando ele para o benefício de todos os seres sencientes. Eu sonhei e senti que tinha que dedicar os votos para todos os animais que eu comi e que morreram para isso, por algum motivo misterioso. Foi bem legal e importante para mim ~ meu desjejum me trouxe uma imensa alegria.

Os ensinamentos continuaram e fizemos um acúmulo de mantras por três horas consecutivas. Sim, o retiro é puxado e não é um spa. Percebi que muitas pessoas foram lá pensando que iriam relaxar, enquanto, na verdade, treinar a mente não é uma tarefa totalmente relaxada ~ até conseguirmos relaxar, é preciso de disciplina e prática. Temos muitas caraminholas e venenos mentais que nos machucam e que precisam de purificação ~ ódio, apego, aversão. De qualquer forma, o corpo também fica um pouco cansado, porque são muitas horas sentado no chão na posição de lótus com as pernas cruzadas, apesar de que se você quiser, pode solicitar mesa e cadeira, o que não foi meu caso. Graças a um óleo de arnica da minha xará quase-virgo eu consegui aguentar a dor muscular nos joelhos ~ recomendo óleos de massagem e muito alongamento para quem é marinheiro de primeira viagem!

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Bandeiras de oração sendo colocadas…

Depois do almoço, participamos da cerimônia mais linda da vida, que eu chorei sem parar porque achei muito especial e sagrada. Enquanto eram entoados mantras, queimadas algumas plantas e outras substância que não soube identificar, numa fumaça quase mágica subindo aos céus, bandeiras de oração foram penduradas numa estrutura gigante que parece o topo de uma montanha. Cada vez que o vento sopra, as bandeiras entoam um mantra ❤

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Ficaram assim ❤

E assim acabou o retiro. Como eu fiquei até o outro dia pela manhã, aproveitei para conhecer os arredores das construções e encontrei a primeira estupa da região ~ pequena edificação que é preenchida de orações e oferendas ~ construída pelo Chagdud Rinpoche, o mestre tibetano que encantou meu coração com tamanha coragem, paz e amor. Ele veio para o Ocidente fugido do Tibet em função da invasão chinesa e nos anos 1980/1990 encontrou no interior do Rio Grande do Sul o lugar que iria construir o complexo das suas tradições religiosas, tão pacíficas, criativas e amorosas. Quero ler um livro que ele conta sua história, chamado O Senhor da Dança para poder falar mais desse ser muito especial que tivemos as bênçãos de receber no sul do país.

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Templo Guru Rinpoche.

Minhas colegas de quarto já haviam ido embora ~ quase todos que estavam no retiro foram. Os turistas também, porque os portões fecham as 17h. Você pode ir visitar o Templo como turista, e lembre de que é um espaço sagrado que merece outro tipo de atenção! Sinta, acolha a energia, faça orações, converse com o lugar ~ seu coração merece e é uma forma de respeitar e honrar o trabalho espiritual feito diariamente no Khadro Ling!

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dia 4

Dia de voltar para a realidade que parece um sonho! Sim, a gente desce das montanhas sentindo outra conexão com a vida. Voltei para Porto Alegre, onde dei umas voltas no asfalto e concreto, cuidando para não pisar nas formigas e abençoando minha comida antes de comer ~ tipo de lavagem cerebral que só traz amor e compaixão. Agora, é saber lidar com a purificação na realidade que vivemos, cheia de contradições, venenos e conflitos, tudo isso para nos ensinar que a verdade é uma grande ilusão da mente.

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Almoçando em Porto Alegre: de volta a literatura “ocidental” 🙂

Alguns links úteis:

Site Chagdud Gonpa Brasil: https://chagdud.com.br/

Site Khadro Ling: http://www.templobudista.org/

App com eventos do budismo tibetano vajrayana no Brasil: Chagdud Gonpa

E se você gosta disso tudo, recomendo super assistir os filmes “Sete Anos no Tibet” e “O Pequeno Buda”.

Beijos

Júlia

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