A Louca em: A Roda da Fortuna

Quando as mulheres e homens chegam à Lua, olham para nós na Terra.

O relógio de prata que ganhou do Príncipe reluz com a claridade da manhã. A Louca tem sua cabeça apoiada na janela do Expresso Relâmpago para contemplar, com o olhar pacífico que transborda intensidade, as terras gélidas do extremo norte do Mundo dos Vivos ficarem para trás. Ali ela passou os últimos meses de inverno, aninhada nas gotas de sabedoria do desconhecido Eremita no alto da cadeia de montanhas em formato de peixe, onde aprendeu a aceitar o vazio que a habita ao se dar conta que o mesmo nada mais é que a forma básica e infinita do universo. Apesar disso, seus pensamentos estão um pouco desorientados, pois até então seu precioso objetivo era chegar às Grande Montanhas e, agora, indo embora do lugar que a guardou e a orientou por tanto tempo, o que será que deve fazer? Para onde deve ir? Parece que ela voltou para a mesma condição desde que se jogou do abismo… sem saber onde seguir e sem compreender seu lugar no mundo. Como seria possível voltar a estaca 0 depois de tudo o que viveu?

Antes de embarcar, aceitando que qualquer caminho é caminho, ela comprou um bilhete para o Leste, rumo ao vilarejo dos Quatro Ventos, simplesmente porque era o horário de embarque mais próximo. Como a primeira classe estava esgotada, ela aceitou a passagem econômica, e por isso, está um pouco encolhida entre um banco de couro marrom e uma mesa estreita de madeira polida, em frente a uma mulher de meia idade que veste um casaco berinjela com o busto forrado de colares de pedras cintilantes. A Louca não sabe se é pela roupa que ela usa ou pela sua amável expressão, mas ela a lembra alguém que lhe falta a memória. As duas se olham cordialmente de tempos em tempos, já que ambas não tem outra opção na disposição apertada do imenso vagão lotado de mais mesas e muito mais passageiros, mas a Louca busca fixar sua atenção na paisagem lá fora, despedindo-se dos segredos silenciosos das montanhas que tocam o céu.

“Chá Preto”, a Louca responde para o funcionário do trem que prontamente coloca um bule fumegante sob a mesa. “O mesmo para mim”, diz a mulher a sua frente. As duas se entreolham com um sorriso de cumplicidade, “Anastácia”, a mulher afirma enquanto serve chá para as duas. “Esse é meu nome. E o seu, minha querida?”. “Pode me chamar de Louca”, responde a Louca bebericando a bebida que ainda está um pouco quente. “Muito prazer”, ela complementa gentilmente colocando de volta o bule no lugar e fazendo sua pulseira feita de delicados fios dourados que penduram centenas de pequenas moedas tilintar, “Posso saber o que te trouxe para as terras do extremo norte, querida?”. A Louca abre a boca e percebe que esta é a primeira conversa que ela tem desde que saiu de sua reclusão eremita, “Eu vim procurar… er… procurar um amigo”, ela responde sem saber muito bem o que dizer, afinal, não é todo mundo que acreditaria que ela chegou ali seguindo sua intuição através de mensagens enigmáticas entregues por alguém que ela nunca conheceu. Como explicar o que lhe aconteceu em palavras compreensíveis?

Anastácia olha profundamente para os olhos da Louca enquanto o trem dá leves solavancos, “Você se jogou do abismo, não se jogou?”, ela pergunta inesperadamente para a Louca que se engasga com o próprio chá. “Como você sabe?”, indaga a Louca surpresa, limpando a boca. “Oh querida, está escrito nas marcas do seu rosto. E o que você pretende fazer no vilarejo dos Quatro Ventos?”, Anastásia questiona envolvendo a xícara com seus dedos finos e enrugados que exibem anéis de vários tamanhos. “Na verdade, eu não sei bem…” a Louca responde incomodada, porque essa ideia estava começando a lhe apavorar, “Acredito que eu estou à mercê do meu próprio destino”, ela complementa soprando o resto do chá no inconsciente desejo de acabar logo a conversa, mas Anastácia dá uma risadinha abafada e acrescenta, “Você gostaria de saber o seu destino?”. A Louca, sem entender, retruca, “Como assim, meu destino?”. Anastácia bebe pacientemente seu chá antes de responder, “Ora, saber o que vai acontecer com você, os eventos, os caminhos cruzados, as possibilidades que se abrem no horizonte da sua vida”, “Você quer dizer… meu futuro?”, pergunta a Louca voltando para si mesma, “E quem no mundo dos Vivos não é fascinado com o futuro?”. Anastácia sorri e confortavelmente continua tomando a bebida, enquanto a Louca volta a contemplar as Montanhas que se tornam riscos no horizonte distante, “Certamente gostaria de saber o meu”, ela suspira bebendo o resto do chá mergulhada no olhar longínquo.

Anastácia dá um imenso sorriso, “Então hoje é seu dia de fortuna, querida. Eu posso ler o seu futuro”, ela afirma com certa euforia, deixando a bebida de lado e continuando, “Eu sou uma das Sacerdotisas das bandas orientais. Você provavelmente já conheceu uma das minhas irmãs em sua jornada”. A Louca também coloca xícara sobre a mesa para observar o rosto da mulher, finalmente reconhecendo porque ela lhe lembrava alguém: Anastácia tinha o mesmo tom indecifrável que ela sentiu no Portal da Sacerdotisa algum tempo atrás, quando estava no começo da jornada. “Sim… de fato, eu sabia que você me lembrava alguém. Eu conheci sua irmã… ela me ensinou a meditar e a ouvir minha intuição. Mas… ela não disse nada sobre meu futuro”, fala a Louca se inclinando para frente com curiosidade.

“Claro que não disse. Cada coisa tem seu tempo, querida. Mas, diferente da irmã que você conheceu, eu sou uma viajante. Por isso, em troca dos meus serviços, gostaria desse seu relógio para poder pagar minhas despesas com a viagem. Perceba que o dinheiro que chega até mim é para eu realizar meus desejos auspiciosos”, ela fala com honestidade, apoiando a mão no peito. A Louca observa o objeto reluzente que envolve seu pulso… nele ela lembra do Príncipe, de quem teve tantas saudades quando chegava nas Grandes Montanhas, mas que, com o silêncio eremita, aprendeu a se libertar. Era melhor saber seu futuro do que se amarrar ao seu passado, não era? Ela se questiona provocativa. Percebendo que não tem nada a perder, abre lentamente a fivela do relógio e se despede da lembrança que passa para os dedos brilhantes de Anastácia.

“Obrigada”, diz Anastácia guardando com uma das mãos o relógio no bolso do casaco enquanto com a outra aproxima a xícara da Louca para perto de si, onde observa as ondas negras da erva do chá formando padrões enigmáticos. Ela puxa ainda a mão da Louca em frente ao seu nariz, acompanhando com a ponta dos dedos e o tilintar das suas pulseiras as linhas que cortam a palma da mão da Louca, até subitamente segurar com firmeza no pulso. Fechando os olhos e respirando três vezes, Anastácia parece entoar sua própria predição: “A sorte nasce em você como uma lua cheia na noite de um céu estrelado. No vilarejo dos Quatro Ventos, um chalé irá te abrigar. Riquezas você vai ganhar. Mas há um homem numa carruagem a te esperar. Vocês vão se encontrar para se amar. Sua mãe é a chave, porque tudo só ocorrerá bem se você deixar a roda girar. Se você não deixar, ela irá te empurrar para cima e para baixo, sem parar. Lembre-se: uma vez que a xícara está cheia, logo pode não estar”. Então Anastácia emudece, abrindo os olhos como uma flor que desabrocha enquanto a Louca franze a testa no esforço de assimilar tantas informações. Que tipo de chave sua mãe teria, já que ela ficou do outro lado do abismo? E o homem que Anastácia falou… numa carruagem…  só podia ser o Príncipe. Eles vão se amar? Quando a Louca pensa nessa possibilidade suas estranhas formigam e seu coração acelera. O que seria a ‘roda girar”? Ao menos ela iria ganhar riquezas e um abrigo…

Anastácia larga o pulso da Louca, acomoda-se no assento e declara normalmente, “Você tem metade da jornada pela frente, querida”. A Louca olha para ela confusa, “Será que você pode me explicar melhor todas essas coisas que você disse?”. “Oh, eu não lembro o que disse”, suspira Anastácia se servindo novamente do bule o chá que parece estar um pouco frio, “Ler o destino não é uma ciência maquinista, querida. É preciso de interpretação e imaginação, da sua parte, para que o melhor aconteça eternamente”. A Louca dá um sorrisinho enfadonho, porque esperava algo mais concreto da leitura da Sacerdotisa do Oriente, mas se conforma apoiando a cabeça para trás com seus pensamentos fixos nos pedaços de futuro que lhe foram revelados enquanto a locomotiva corre veloz em direção as terras do Leste.

Em pouco tempo, ela pega no sono e sonha com o Príncipe. Ele está na sua carruagem, imponente, gritando aos quatro cantos, “Eu te amo, Louca! Onde você está?”, até que o pomo de ouro talhado no seu transporte se abre, transformando novamente os cavalos nas duas esfinges, uma preta e outra branca. Elas agora carregam no topo da cabeça uma pena pérola luminosa e subitamente abrem suas bocas gigantes para devorar o Príncipe e perguntar: “Porque?”. Depois disso, uma chave de bronze em formato de um coração se movimenta num redemoinho até chegar no ventre da Louca, que inesperadamente é a fechadura de um baú de tesouros. O mesmo se abre, convidando-a para mergulhar dentro, mas ela já não é a mesma: seu corpo está vermelho e sua cabeça é como de um grande cachorro escuro…

“Senhorita, o que você gostaria de comer?”, insiste o funcionário narigudo do trem que empurra um carrinho abarrotado de pratos, despertando-a do tecido do sonho. Ela leva a mão à cabeça com os olhos arregalados para certificar que realmente não se transformou num cão sinistro rubi. “Eu pedi peixe ensopado”, Anastácia sugere mexendo com uma colher um prato que parece uma tigela, mas tudo o que a Louca não quer comer é peixe, porque foi sua dieta dos últimos meses. “Temos peixe ensopado e macarrão ao molho sugo”, repete o funcionário impaciente com a voz nasalada. “Pode ser macarrão”, responde a Louca se recompondo do jeito que pode no apertado assento do trem.

O molho da sua comida está um pouco ácido e o queijo um pouco passado, mas ela não se importa porque o sonho esquisito só reforçou o fato de que o Príncipe a procura, assim como a fortuna da Sacerdotisa do Oriente desvelou! Seus pensamentos transbordam agora vontade de encontrar ele, assim como suas entranhas enformigadas. Não vendo a hora de chegar à Quatro Ventos para que seu futuro aconteça, ela recorda sem parar as palavras entoadas por Anastácia, que diziam, entre tudo o que ela não entendeu, como a história da roda e da xícara, que lá era se abrigará num chalé e ganhará riquezas. Será que o Príncipe a encontrará em Quatro Ventos? E a chave que sua mãe tem? Será que ela também irá até a cidade? A Louca desconfia muito desse último questionamento, pois sua mãe está do outro lado do abismo vivendo o que a Louca acha ser uma vida restrita demais, controlando o mundo nos mínimos detalhes, e jamais se jogaria do abismo como ela mesma fez.

De qualquer forma, o entusiasmo toma conta do seu espírito fazendo a alegre tarde voar enquanto ela e Anastácia se distraem jogando cartas, conversando sobre as aventuras que passaram até então, bebendo mais chá preto – desta vez com leite e mel – e comendo um pote inteiro de biscoitos amanteigados. Anastácia explica para a Louca que está indo para Quatro Ventos encontrar um linguista e escritor chamado Serafim que irá lhe ajudar a decifrar manuscritos hebraicos que ela ganhou de uma anciã na sua última viagem às profundezas do Oriente. A Louca lhe deseja sorte e promete que irá a visitar enquanto ela estiver lá, para que bebam mais chá com apaixonantes conversas alegres.

Já é final do dia quando as primeiras paradas da região do Leste surgem, fazendo metade do trem esvaziar. A Louca está ansiosa com a sorte que lhe acontecerá a partir do momento que chegar na cidade, mal podendo se controlar com a ideia que em breve veria o Príncipe e a lua nova está invisível no céu quando o Expresso Relâmpago chega ao seu destino final. Ela se despede de Anastácia rapidamente em meio ao tumulto da estação para finalmente se encontrar sozinha com sua mala e sua capa de viagem floral, esta que logo despe porque o clima ali está muito mais ameno do que nas terras do extremo norte. Sem saber se vai para a esquerda ou para a direita da estação, ela simplesmente decide atravessar a rua e entrar numa porta estreita de madeira que indica com uma placa ser um restaurante de nome “Romani”. Seu instinto implora por uma deliciosa refeição.

Ela desce pela escada comprida e, envolvida pelo som contagiante de uma música ritmada, aos poucos consegue ver o aconchegante ambiente iluminado por centenas de velas dentro de garrafas de vidro coloridas. O local está praticamente lotado por várias mesas redondas altas de madeira dispostas aleatoriamente no espaço, que tem vãos amplos para a passagem dos clientes. Quando chega no pé da escada, ela avista aos fundos uma grande abertura na parede enrolada por uma trepadeira que se abre num pergolado para o jardim onde a banda toca à luz da invisível lua. O cheiro de canela e especiarias estala pelo ar, fazendo a barriga da Louca roncar e ela rapidamente se senta na mesa que mais lhe chama atenção, de onde pode ver com detalhes o jardim e os instrumentos curiosos do grupo musical – um cimbalom e uma viola.

Ela pede o prato da casa, um ensopado de carne e legumes com pães artesanais, acompanhado de cremes de diferentes cores e sabores, e uma garrafa de vinho produzida ali mesmo. Agradecida pela delícia de refeição, ela observa as alegres pessoas bebendo, comendo e conversando ao seu redor, percebendo que algumas mesas estão ocupadas por entusiasmados grupos que jogam cartas. Meia garrafa de vinho depois, a Louca decide se juntar a um deles, já que passou a tarde inteira aprendendo diversos jogos com Anastácia. A sorte está a seu favor, não está? Um homem barbudo sentado no canto do restaurante se levanta tocando acordeon e atravessa o ambiente até chegar ao jardim, incrementando o som com uma beleza indescritível enquanto a Louca se embala entre apostas e cartas.

Conforme as rodadas passam, ela aproveita para se informar sobre a cidade e a região que está, pois nunca esteve tão a Nordeste do Reino. “E aqui no Romani é que viemos todas as noites”, diz Ernesto, um senhor gorducho que veste um colete cinza justíssimo, “Nosso chalé preferido”. “Chalé?”, pergunta a Louca curiosa. “É como a falecida velha Romani chamava esse lugar, a primeira pensão que ela construiu. Os filhos dela mudaram o nome para Romani, como homenagem, depois do acontecido”, explica Ernesto analisando suas cartas com as grossas sobrancelhas levantadas. “Quer dizer que aqui também é uma pensão, que se chama Chalé?”, pergunta a Louca vendo o seu destino acontecer da forma como a Sacerdotisa do Oriente previu. “Hoje eles tem poucos quartos no andar de cima. E estão sempre lotados. Funciona mais como um restaurante bar. Essa cidade é muito… intellectuel…”, arranha um sotaque francês Brigitte, a mulher robusta de Ernesto, “o Chalé da velha Romani é onde viemos nos divertir”, ela complementa jogando dois Ás na mesa. Nesse momento, a Louca fica de boca aberta, porque não só percebe que está no Chalé que irá a abrigar como vence a partida com uma jogada de mestre.

Depois de muitos brindes, conversas e rodadas, mesmo embriagada, ela vence mais e mais partidas – a fortuna do seu inevitável destino – e seus bolsos já não tem espaço para tantas moedas de ouro. De qualquer forma, o chalé Romani não parece que vai a abrigar do jeito que Anastácia previu, porque a Louca conversou com o jovem charmoso que atende no balcão e realmente eles estão com os quartos lotados. A madrugada chega, a banda pára de tocar, o restaurante se esvazia, muitas velas se apagam e é hora de ir embora, mas, enquanto a Louca paga sua conta, uma mulher de repente desce as escadas do jardim, berrando sem parar entre soluços e lágrimas, “Eu vou zarpar daqui agora! Você não me merece!”. E, empunhando uma pesada mala quadrada de madeira, sai esvoaçante pela escada que a Louca entrou.

“Lá se vai nossa melhor hóspede”, diz o jovem no balcão. “Hóspede? Quer dizer que agora vocês tem um quarto vago?”, pergunta a Louca com os olhos brilhando. “Aparentemente sim”, responde o jovem entregando o troco para a Louca. “Eu quero ele. Posso ficar com ele?”, ela diz sorridente devolvendo o troco como gorjeta para o rapaz. “Ah, eu acho que sim. Só vai demorar até de manhã para ajeitarmos tudo. Sabe… limpeza… e”, ele explica se inclinando para sussurrar em tom de fofoca, “ela estava tendo um caso com o pianista”. “Ah, sim. Tudo bem, eu espero. Eu espero aqui se você não se importar e me servir mais uma garrafa de vinho”, diz a Louca numa alegria incomensurável.

Os pássaros acordam a manhã e a Louca está adormecida com os braços cruzados sob numa das mesas do restaurante ao ser chamada pelo homem que faz a limpeza. O quarto dos Romani é confortável e colorido, tomado por uma tapeçaria vermelha no chão, almofadas de cetim por todos os cantos e uma cama com um grande dossel feito de voal transparente azul celeste. Ela não percebe esses detalhes, nem ao menos as janelas verticais que tem vista para o Vale, ao entrar ali pela primeira vez, apenas se joga na cama de bruços para dormir o máximo que puder. A fortuna estava acontecendo.

Assim, nos próximos dias, abrigada no apelidado “Chalé”, com os bolsos recheados de moedas, ela conhece a cidade dos Quatro Ventos, que acaba se revelando um lugar realmente intelectual, com cafés, bibliotecas, universidades, museus e pequenos sebos pitorescos. Mas ela não quer saber muito de leituras, já que passou os últimos meses lendo a biblioteca do Eremita e agora sabe que seu destino “cheio de sorte como uma lua cheia” está se derramando em frente aos seus olhos. Prefere vagar pelas ruas na ansiosa espera do Príncipe e, à noite, encontrar suas mais recentes amizades para beber vinho e comer pratos deliciosos.

Uma, duas, três semanas se passam e ela começa a se perguntar porque. Porque tanta fortuna? Porque está abrigada no Chalé? Porque encontrou Anastácia? E, principalmente, porque ela não recebeu ainda nenhum sinal do Príncipe? Os passeios nas ruas da cidade perdem a graça, os encontros nas mesas redondas dos Romani servem apenas para ela se embriagar… seu coração se torna uma bomba de ansiedade. Quando o Príncipe vai chegar? “Sorte como uma lua cheia em noite estrelada”… a Louca repete para si todo dia, mais e mais obsessiva com sua ideia de futuro. Será que ela deve ir para outro lugar? Não ficou claro se ela teria que ir ao encontro dele, ou se ele viria ao encontro dela… e a chave que sua mãe tem? Onde estará? E porque é sua mãe que tem uma chave afinal de contas? Ela se pergunta nas madrugadas inebriantes, até enfim ir visitar Anastácia que está hospedada na casa de Serafim, o linguista, para sanar suas aflitas dúvidas.

Mas a Louca logo descobre que Anastácia está tão concentrada em desvendar os mistérios dos seus pergaminhos hebraicos, que não dá muita atenção para ela. A única coisa que diz é para a Louca se dar conta de algo enquanto bebe chá. “Beber chá? O que beber chá tem haver com meu destino?”, pergunta a Louca descrente, apoiada numa das prateleiras abarrotadas de invenções estranhas de Serafim, “Eu não sei ler a borra que fica na xícara… não tenho esse dom”, ela complementa indignada para Anastácia que está debruçada com uma lupa sob um papel que parece muito antigo, enrolado nas duas pontas. “Não estou falando para você ler o seu destino, querida. Estou orientando que você preste atenção no ato de tomar chá”, responde Anastácia amigavelmente, tilintando sua pulseira.

Nos próximos dias, a Louca bebe litros de chá de todos os jeitos possíveis. Ela bebe chá preto, chá verde, chá branco, infusões de ervas e até consegue um pouco de ginseng de um comerciante oriental que passou pela estação em um dia de chuva. Ela quase enfia seu rosto dentro das xícaras, faz orações para os bules cheios d’água, compra centenas de porcelanas de variados tamanhos, ansiosa para que seu futuro aconteça de uma vez por todas. Mas o Príncipe continua sem aparecer. Ela não consegue entender, ele viaja tanto… como ainda não a encontrou ali? Porque eles estavam ainda separados se era para se amarem?

Numa manhã de tempestade, ela acorda enjoada de tanto, mas tanto, beber chá. “Basta”, ela afirma para si mesma, pedindo uma taça de vinho no desjejum e resolvendo de uma vez por todas enviar uma carta para seu amado Príncipe, dizendo que está em Quatro Ventos o esperando. Entrega a correspondência para o Cavaleiro de Copas, que rapidamente se dirige a Torre do Príncipe, localizada no coração da Cidade de Todos os Reinos. Três dias de intensa inquietude se passam e o Cavaleiro retorna com más notícias: parece que o Príncipe saiu numa de suas viagens infinitas e ninguém sabe do seu paradeiro. A Louca quase tem um infarto, que só mais vinho engarrafado pode acalmar, e logo decide avisar o Imperador e a Imperatriz que seu filho pode estar correndo perigo. Outros três dias de intensa aflição se passam e o Cavaleiro de Copas retorna com cartas de ambos, que respondem que provavelmente está tudo bem com o Príncipe, porque, em suas palavras “ele sabe se virar”, “é independente”, “autônomo nas suas decisões” e “muito responsável”. A Louca fica indignada com a falta de cuidado daqueles pais, e determina, sem mais nem menos, que vai atrás de seu amado, custe o que custar. Não é seu destino o encontrar?

Assim, ela se prepara para uma longa viagem. Nas próximas madrugadas, abastecida por garrafas e mais garrafas de vinho na solidão do seu quarto, ela metodicamente desenha um mapa com os possíveis locais que deve ir. Com toda sua riqueza, compra vários bilhetes de trem, reserva carruagens, hotéis, equipa-se com mantimentos, roupas novas e outros instrumentos. Ela até manda costurar um bolso interno à prova d’água especial na sua capa floral para guardar o mapa que está elaborando só para a viagem. Seu primeiro destino será a cidade de Touro Vermelho, no extremo sudeste do Reino e ela mal se despede dos seus amigos porque parte atrasada por novamente ficar acordada até tarde planejando e bebendo as últimas garrafas de vinho que comprou.

Ela vai demarcando no mapa com uma pena grossa por onde passa, a fim de manter tudo em ordem, mas não há sinal do Príncipe em todas as terras que atravessa até chegar à Touro Vermelho. Ali, ela se acomoda num hotel luxuoso, porque quer descansar o máximo que pode para seguir jornada, mas, quando vasculha a cidade em busca do amado, percebe que só existem mansões, construções sofisticadas, ruas desenhadas, jardins deslumbrantes e uma fantástica abundância de frutas e árvores. É claro que ela aproveita para se deliciar com tanta beleza, além de conhecer as vinícolas da região, onde experimenta um famoso vinho frutado que a ajuda aliviar a tensão.

Sua viagem segue rumo a cidade do Leão Alado, extremo sudeste do Reino. Aos poucos, as outras predições da Anastácia se tornam uma lembrança distante: ela só consegue pensar em sua busca incessante. Mas, entre todos os vilarejos, povoados e encruzilhadas novamente não há sinal do Príncipe. Onde estará seu amado? Porque ela não o encontra? Porque ele não a encontra? Porque seu destino parece estar equivocado? Porque Anastácia lhe fez previsão tão bela? Porque ela teve o sonho com o Príncipe a procurando? Ela se pergunta, de estação em estação, cavalo a cavalo, carruagem a carruagem, hotel a pensão. Novamente, ela descansa em Leão Alado, onde se depara com uma diversidade de produção de cervejas artesanais que a ajudam esquecer um pouco as perguntas circulares – “porque, porque, PORQUE?”. As pessoas dali contam muitas histórias histórias heróicas dos seus antepassados, esculpidos em diferentes estátuas de pedra espalhadas pelas ruas. Nem ali, no berço dos guerreiros, ela encontra o seu amado Príncipe.

Então ela se direciona rumo ao extremo noroeste, até chegar em Águia Azul, que tem ruas inteiras forradas de turquesa e postes que exibem bandeirolas de orações. A Louca vasculha os diversos templos e santuários da cidade, em busca do amado, que poderia talvez estar num retiro, numa prática de meditação, e assim ela conhece sacerdotes, sacerdotisas, mestres, discípulos, aprendizes, bodhisattvas… mas ninguém sabe do seu Príncipe. Numa manhã de domingo, dentro do principal templo da cidade, que tem o formato de uma grande águia da cor do céu, ela se dá conta que um ano inteiro se passou e que ela não tem mais dinheiro para seguir com seu projeto de viagem. Além disso, seu corpo aguenta mais tantas horas sem dormir, tampouco tanta bebida que ela tem ingerido porque quer esquecer que seu amor pode estar desaparecido do Reino dos Vivos. Talvez a Sacerdotisa do Oriente estava realmente errada…

Assim, com os últimos tostões no bolso, a Louca volta para Quatro Ventos no intuito de encontrar Anastácia e esclarecer seu infortúnio destino. Ao chegar lá, Serafim a acolhe em sua pequena casa entulhada de livros e informa que Anastácia havia partido na noite anterior para a cidade de Águia Azul coletar informações preciosas para a tradução que estavam realizando. “Mas eu acabei de voltar de lá!”, resmunga a Louca sem acreditar no seu próprio azar. Serafim permite que ela durma na sua casa por alguns dias para que continue seu plano obsessivo. A Louca vai então todas as noites ao Romani jogar, a fim de conseguir dinheiro – só que perde mais do que ganha. Serafim, caridoso, ajuda-a em seu desespero com algumas moedas para que  encontre Anastácia e resolva sua urgência.

Assim, a Louca volta em Águia Azul, onde o jovem sacerdote do Templo da Lua informa que Anastácia havia retornado na noite anterior para Quatro Ventos. “Não acredito!”, exclama a Louca bufando de raiva, dor, aflição, revolta e todas as qualidades negativas da existência. Como que isso pode ser um futuro de fortuna? Cadê sua lua cheia? Porque aquilo tudo estava acontecendo? Sem dinheiro, sem Príncipe, sem abrigo, sem chave nenhuma e sem ao menos conseguir encontrar Anastácia, a Louca vende os últimos objetos que lhe restam. Com o corpo desgastado e com sérios problemas alcoólicos, volta para Quatro Ventos, onde encontra Anastácia e Serafim bebendo chá preto na varanda em comemoração à tradução hebraica enfim concluída.

“Oh, querida. O que aconteceu com você? Você está acabada”, exprime Anastácia preocupada. “Deu tudo errado na minha vida, Anastácia. Eu não sei o que aconteceu com meu futuro”, a Louca desabafa desesperada, secando as grandes e gordas gotas de lágrimas que se penduram em suas olheiras. “E você meditou sobre a xícara de chá, como eu lhe falei?”, pergunta Anastácia com discernimento. “Sim… eu bebi todo o chá desta cidade… eu acho que eu bebi todo o chá existente no Mundo dos Vivos… eu bebi tanto chá que fiquei enjoada”, responde a Louca sem conter o choro. “E aí você resolveu beber algo mais interessante?”, sugere Anastácia se aproximando e sentindo o cheiro de álcool exalar dos poros da Louca.

A noite está caindo, o verão está quase chegando, as folhas de eucalipto deleitam a todos com suas fragrâncias, os insetos rebolam pelos ares, o chá ainda está quente dentro do bule e Anastácia envolve a Louca num abraço como uma mãe conforta uma filha em um dia de tempestade. Nos próximos dias, a Louca descansa infinitamente na casa de Serafim e pára de beber, de forma que suas olheiras desaparecem e sua mente começa a ficar mais e mais clara. O que ela estava fazendo com ela mesma? Que tipo de hábitos eram aqueles? Parecia que ela voltou para sua vida antes do abismo…

Um dia, depois de muitos sonos reparadores, comidas cheias de vida e companhias agradáveis, ela enfim acorda com disposição, esquecendo um pouco do Príncipe. Serafim e Anastácia foram à universidade dar uma palestra sobre o manuscrito que traduziram, então, sozinha em casa, resolve beber um chá para despertar. Fazia realmente tempo que ela não preparava chá. Enquanto enche o bule de água, os acontecimentos do último ano pipocam como flashes na sua mente de certa forma ainda desorientada, porque ela não consegue entender como chegou num poço tão fundo. Pela janela, ela pode ver a lua cheia transparente se por no horizonte, fundindo-se com a cor rosada do amanhecer. “Sorte como uma lua cheia…”, ela repete, rindo de si mesma e abrindo a lata do chá preto cujo cheiro logo invade a cozinha. Lembra da viagem com Anastácia no Expresso Relâmpago, quando se sentia tão bem, contente, relaxada com seu futuro… quem diria que tudo aquilo aconteceria? Continua refletindo, colocando duas colheres da erva numa grande xícara branca para depois a encher com água quase fervente e a tapar com um um pires vermelho. Com a bebida em mãos, ela se dirige a sala, de onde pode ver de relance a imagem de um grande círculo no manuscrito hebraico disposto sob a mesa de trabalho de Serafim. “A roda girar…” ela lembra das palavras da predição de Anastácia, enquanto se acomoda na poltrona em frente a uma janela quadriculada com  vista para um gramado selvagem.

Ela havia esquecido de meditar sobre os significados mais profundos do que Anastácia lhe falou, como a ideia de que ela tinha que deixar a roda girar… Na verdade, ela tinha sido relapsa com suas meditações e leituras e toda introversão que aprendeu com o eremita fora enterrada pela extroversão de uma busca obsessiva pelo Príncipe. Além do mais, nem pensou em sua mãe, na chave que poderia ter recebido… Ao destampar a xícara, entre estes pensamentos reflexivos, a Louca observa a água escura, bebendo cada gole com calma, para que seu corpo se sinta relaxado e sua mente emane novamente a atenção presente que aprendeu nas Grandes Montanhas de Todos os Reinos.

Entre um gole e outro, observando a relva selvática pelas vidraças, a xícara se esvazia. Antes cheia, minutos depois, vazia. Não foi assim com ela também? Ela se dá conta como se um raio estalasse de dentro para fora de sua mente. Quando chegou em Quatro ventos estava cheia de entusiasmo, agora vazia. Estava cheia de dinheiro, agora vazia. Estava cheia de paz, agora vazia. Se o vazio é o que preenche o espaço cósmico universal, como aprendeu com as gotas de sabedoria do Eremita, as coisas se enchem para voltarem a ficar vazias… e seus olhos se enchem é de lágrimas. Parece que era isso que Anastácia queria que ela percebesse no ato de tomar chá…

A Louca respira aliviada numa sensação de que seus pensamentos se desmancham no ar. Tudo é impermanente. Sua condição de tristeza é impermanente. O chá é impermanente. A vida é impermanente. A velha Romani é impermanente. O amor pelo Príncipe é impermanente. As garrafas de vinho são impermanentes. Seu corpo é impermanente. A sabedoria de Anastácia é impermanente. Porque ela estava tentando controlar o destino se a vida é a experiência da impermanência? E porque mesmo ela ainda insistia em responder, “porque”? Pergunta-se rindo da própria teia mental que a enreda num vai e vém sem fim. Então  a capa floral, estendida na cadeira à sua frente, chama sua atenção. Ela se debruça e retira do bolso interno o mapa que a acompanhou fielmente na viagem, abrindo-o em frente ao nariz e rindo mais ainda. Agora enfim percebe que as marcações de seus destinos formavam círculos e mais círculos: ela estava voltando sempre para o mesmo lugar, cega pelo objetivo de controlar o incontrolável destino.

Com os olhos fixos no mapa, ela também percebe que estava parecendo alguém que ela conhece… ela estava parecendo a sua mãe. Novamente seus olhos se enchem de lágrimas, que logo molham o mapa inteiro. A chave, profetizada por Anastácia, trata-se do reconhecimento de que ela estava imitando os padrões da sua mãe, restringindo a espontaneidade da vida por um comando autoritário. Antes de querer controlar sua existência e ir atrás do Príncipe, o seu destino estava acontecendo tal como Anastácia previu. Foi depois que ela começou a ficar ansiosa demais, obsessiva demais, futurista demais, controladora demais, que as coisas começaram a dar errado.  Talvez ela não precisasse entender porque o Príncipe havia desaparecido e estava demorando a encontrar ela se apenas permitisse que sua vida acontecesse. Ou melhor, ela tinha que ser e o que fez foi se obrigar a ser… A Louca rasga o mapa em mil pedaços sentindo profunda compaixão por sua mãe, porque agora entende a experiência do ponto de vista dela.

Joga os destroços do mapa pela janela, para que o vento leve embora e a terra trate de os deteriorar nas entranhas da impermanência. Veste uma calça marrom e uma camisa branca, calça suas botas afiveladas e sai para dar uma caminhada a fim de contemplar o impermanente sentido da realidade em todos os cantos de Quatro Ventos… nas esquinas, nos animais, nas rugas do rosto das pessoas, nas refeições que logo se acabam, nos patos que nadam no lago, nas garrafas que se esvaziam, nas construções que apresentam marcas, nas folhas secas dos canteiros, nos túmulos do cemitério, nas partidas da Estação…

Ao passar em frente a uma das livrarias pitorescas da cidade, que tem a porta no formato de um coração, a Louca percebe que não lê um livro desde que saiu da caverna do Eremita, mesmo vivendo tanto tempo naquele lugar que transpira intelectualidade. Os livros também são impermanentes e ela gosta tanto deles! Afirma mentalmente abrindo a bela porta que toca um sino imitando uma flauta doce, para buscar um exemplar que lhe chame atenção. Logo encontra um de capa amarela na estante estreita da esquerda cujo conteúdo são mitos egípcios. Abre em uma página qualquer para se deparar com a representação de Anúbis, um deus que tem o corpo vermelho e a cabeça de um cachorro… exatamente como ela se viu quando sonhou esquisitices no Expresso Relâmpago! Curiosa, senta-se numa das mesas redondas da livraria onde também está um homem com a cara afundada num grande livro de couro.

Depois de contemplar a imagem de Anúbis por alguns minutos, buscando relações com seu sonho mas sem encontrar sentido algum, a Louca levanta o olhar para frente e quase cai para trás. O homem do outro lado da mesa que lê avidamente não é qualquer homem… é o Príncipe! Ele está ali em carne, osso e cabelos reluzentes! Entre todos os lugares do Reino dos Vivos ela foi encontrar ele naquele fim de mundo de livraria! Ela não pode acreditar! E, no mesmo momento que ela percebe ele, seus olhos inundam de lágrimas e seu coração se enche de amor, enquanto ele levanta o olhar e também percebe ela, abrindo-se num sorriso brilhante e desatando a falar como era seu costume, “Louca! Que saudades! Finalmente! Você veio! Como você… er… está? Eu estava… procurando… Queria… me desculpar de novo, pela nossa briga boba… por termos nos afastado… Na verdade, eu estive aqui o último ano inteiro te esperando… Eu encontrei um exótico linguista e uma mulher formidável, chamada Anastácia, que me falou que eu precisava aprender a ter mais paciência dentro do coração, se eu quisesse te rever. Eu precisava trabalhar minha intelectualidade… Por isso, eu deixei minha carruagem na Torre e vim para Quatro Ventos, a cidade mais intelectual de todo o Reino e encontrei essa livraria… você viu o formato da porta daqui? Eu senti que a qualquer momento você iria aparecer! Oh, Louca, eu tenho algo para te falar… não sei bem por onde começar…”.

E a Louca escuta o Príncipe com o coração enquanto as lágrimas salgadas entram dentro de sua boca aberta na fortuna de um sorriso.

equilibrista 01

PRÓXIMA CARTA: A JUSTIÇA

2 thoughts on “A Louca em: A Roda da Fortuna

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