A Louca e Sua Força (VIII)

aforça

“Everything in the world is about sex except sex. Sex is about power”, Oscar Wilde

Os olhos imensos verde esmeralda do Leão Dourado observam a Louca, que está parada como uma estátua no meio da calçada central da Cidade de Todos os Reinos. Ela pensa que qualquer movimento pode o assustar, mas o cachorro que fuçava o lixo da esquina passa por eles sem causar qualquer alvoroço. A Louca se aproxima devagar, buscando algum tipo de interação e ele lhe dá umas piscadelas de confiança. Porque as esfinges lhe deram um leão? De que forma ele vai conduzir ela no seu caminho?

Quando está quase encostando a mão direita no seu fuço, que é do tamanho de uma abóbora gigante, o Príncipe sai correndo de dentro da Torre. “Louca, você não vem trabalhar? Já é quase seis horas. Além do mais, gostaria de acertar seus pagamentos e lhe dar um bônus”, ele diz agitado olhando para ela sem nem se importar com o animal. “Você não vê?”, a Louca pergunta intrigada, mas ele fica olhando para ela com cara de tacho. “O animal, você não vê?”, ela pergunta novamente. “Ah sim”, diz o Príncipe olhando sentimentalmente o cachorro de rua que agora está mijando no poste do outro lado da rua, “Depois eu trago algo para ele comer. Quando é que você se importou com os cachorros abandonados? Vamos, não fique parada aí. Temos muito a fazer.”, ele diz entrando para dentro da Torre.

“Só eu posso te ver?”, pergunta a Louca agora para o Leão, que acena positivamente com a cabeça. “E você pode me entender?”, questiona ela enquanto novamente ele balança sua juba dourado brilhante para cima e para baixo. Os raios de sol emergem detrás das montanhas que envolvem a cidade como um berço titânico chegando até as janelas e portas da rua, as quais se abrem numa velocidade pontual. “O que eu devo fazer com você?”, interroga ela percebendo as ruas despertarem de uma vez por todas, mas ele, ao invés de responder, deita-se amorosamente apoiando a cabeça nas patas parecendo um bicho de pelúcia inofensivo.

O Príncipe novamente sai da Torre, “Louca, estou te esperando. O que está acontecendo? Você está na mesma posição. A parede está com algum problema?”, ele diz impaciente. “Já vou”, responde ela observando a pelagem do leão se iluminar com o nascimento do sol. “Já vai? Já vai? Louca, deixa eu lembrar que eu sou o Príncipe e você é minha empregada. Você não pode atrasar e eu exijo sua presença agora no meu escritório”, ele afirma com firmeza.

Como o Príncipe pode falar assim com ela? Será que ele não tem consideração? Tudo o que ela fez por ele nos últimos meses naquela Torre! E ela não pode “contemplar a parede” por alguns minutos? “Eu disse que estou indo”, ela responde com os dentes cerrados. “E eu disse que eu quero você agora. Ou você não deseja receber seu dinheiro? Organizar as entregas do dia?”, ele pergunta. “Eu preciso de um tempo!”, a Louca desabafa em prantos sem perceber que está gritando com as têmporas para fora, “Você me deixou sozinha aqui, controlando muitas coisas. Estou sem dormir, comer e até respirar direito!”, ela continua. “E você achou que seria fácil amadurecer, Louca? Você achou que seria mamão com açúcar ter uma vida independente na Cidade de Todos os Reinos?”, ele pergunta sorrindo, polindo suas duas luas crescentes prateadas penduradas sob seus ombros. “Eu pensei que… se fosse algo que realmente me fizesse bem eu não estaria assim”, ela responde aos berros, confusa e desolada, com uma vontade verdadeira de bater no Príncipe, por tudo o que ele representa – a boa vida, o movimento, a beleza, o trabalho, o conforto, a decisão. A Louca sentia sua vida exposta numa ferida infinita, sem perspectivas ou sonhos, pulsando frustração embalsamada em ódio. “Esse caminho não tem coração!”, a voz dela ecoa pelas quatro direções.

Nesse momento, o Leão já não está mais sereno descansado sob suas patas gigantes. Ele está quase de pé, com os olhos fumegantes e alaranjados, rugindo de forma que faz as tranças e as pernas da Louca balançarem. “O que está acontecendo?”, pergunta o Príncipe intrigado pela expressão de pavor dela. Antes que consiga responder, o Leão abre sua boca imensa e engole a Louca de uma vez só, deixando apenas sua prancheta jogada na calçada e o cachorro de rua latindo para o buraco vazio e transparente que paira de alguma maneira no espaço.

A Louca pensa que morreu. Mas ela apenas desmaiou. Acorda um pouco gosmenta em uma floresta escura. As árvores ali não são simpáticas como aquelas do Caminho dos Camponeses. Elas são galhudas, pontudas e compridas. Algumas tem o caule preto e outras cinza cálido. Onde ela estaria? A última coisa que lembra é ter sido comida pelo Leão. Se é que isso é possível, porque ainda está viva? Sem saber o que fazer, ela começa a caminhar, acompanhada por milhares de pequenos insetos que insistem em sobrevoar sob seus cabelos lambuzados.

Logo, a discussão que teve com o Príncipe se perde no silêncio adstringente da floresta, interrompido apenas por assobios agudos de pássaros robustos e castanhos. Ela avança sob o chão lamacento que faz seus sapatos ficarem úmidos e seu coração desesperado. O que fazer naquele lugar? Onde encontrar ajuda? Como ela queria estar no seu aconchegante quarto do Hotel do Dragão ou tomar um bom café na Torre do Príncipe… porque ela foi desperdiçar a vida que estava tendo? Porque mesmo que brigou com o Príncipe? Porque aquelas malditas esfinges lhe deram um Leão que acabou literalmente a comendo?

Quanto mais se questiona, mais a floresta se torna obscura, fechada, sem saída. As horas se passam, suas pernas estão com terra até os joelhos, seu corpo anestesiado de adrenalina e os insetos são sua desagradável companhia quando o céu cinza começa a abrir um pequeno feixe de uma luz rosácea, como se a tarde estivesse caindo. Em breve a noite nasceria. A Louca senta num tronco seco e respira profundamente. Jamais imaginaria que estaria num lugar assim. Está com fome, frio, sede e medo, muito medo.

O pavor ameniza quando escuta o barulho de água corrente. Ela corre como uma fera em direção ao encontro das águas, que deslizam férteis num grande riacho. Dali, ela pode ter uma visão mais ampla da floresta onde está, mas esta tem uma vegetação densa que não permite que o horizonte apareça, revelando apenas ao fundo os picos pontiagudos de uma cadeia de montanhas de gelo. A Louca não faz ideia da sua localização, poderia estar no extremo norte mas também no extremo sul. Sem hesitar, ela bebe a água doce e gelada do riacho com tanta voracidade que demora a perceber que está sendo observada por um lobo azulado do outro lado do rio. Instintivamente, dá meia volta e começa a juntar galhos secos para fazer fogo. A noite prometia ser longa.

Por sorte, está com sua bolsa de viagem, antes usada para carregar itens importantes e outros badulaques no seu dia de trabalho na Torre. Ali ela tem um tinteiro e uma pena, algumas folhas de papel, um tubo de batom, uma barra de chocolate que ganhou da recepção do Hotel do Dragão outro dia, um canivete e uma régua. Ela pega uma folha de papel para ajudar a dar luz a uma fogueira grande e aconchegante, janta pedaços do seu chocolate como um banquete divino, bebe mais água, limpa a gosma do seu corpo, passa seu batom para proteger os lábios do vento gélido da madrugada. De repente, todo seu desespero é aquecido pelas chamas que criou e, encolhida junto ao fogo, ao lado do riacho, adormece sob o céu avermelhado.

O dia amanhece com os raios vitais do sol e ela levanta rapidamente procurando sinais de perigo nos entornos da imensidão da floresta. Decide passar o dia tentando pescar no riacho, o que consegue fazer após muitas horas. O canivete a ajuda tirar as escamas e tostar o peixe no fogo, revelando-se a melhor refeição da sua vida. Depois de muito refletir, entende que, para poder seguir a caminhada, precisa se organizar. Por isso define que irá ficar alguns dias naquele local para poder construir uma espécie de cantil, elaborar um tipo de casaco e encontrar uma forma de criar um estoque de comida. Assim, todos os dias antes de dormir, mesmo não conseguindo grandes feitos, ela confia que amanhã poderá tentar de novo e é com essa força que consegue enfrentar as horas.  Para acalmar a mente, volta a realizar as práticas que aprendeu com a Sacerdotisa e o Hierophante, as quais estavam esquecidas no seu entulho psíquico.

O silêncio que a acompanha é tão pleno que ela pode ouvir seus próprios pensamentos. A maioria deles é relacionado à sua vida na Cidade de Todos os Reinos. Com todas aquelas experiências, ela já não encontra mais sentido na briga que teve com o Príncipe e nem nos objetivos que estava buscando ao viver lá. A única coisa que entende astutamente é que precisa sobreviver. A vida selvática que tem agora permite que veja claramente o brilho sombrio do seu ego, os seus desejos ambiciosos de ter uma vida igual a do Príncipe, a vontade de mostrar para as pessoas que também é especial, capaz, rica, com uma vida confortável. Foram eles que a fizeram abandonar seu propósito de chegar até as Grandes Montanhas de Todos os Reinos.

Ali, ela não tem mais ambições além de conseguir o que comer, observar os animais, fazer fogo, ter paciência em seus trabalhos. Acostuma-se com sua vida instintiva. Seus cabelos parecem de um animal, suas unhas estão quebradas e sujas, seus dentes amarelados e, mesmo assim, quando vê seu reflexo nas águas do riacho, percebe seus olhos brilhando radiantes, como a tempos não faziam. Ela pode sentir a naturalidade do seu corpo se manifestar, aceitando e amando todas as habilidades nele contidas, muitas das quais nunca havia explorado. Há algo misterioso naquele lugar que permite que ela seja espontânea, fluída, corajosa,  mestre de si. E, certo dia, quando já está aceitando que irá morrer na floresta obscura, ao dormir um sono profundo, é acordada pelo toque de algo muito fofo. O fuço gigante do Leão Dourado está a farejando, de forma que a juba dele toca sua pele. Ela se afasta de pavor, mas ele dá as piscadelas de confiança e mansidão.

A Louca se aproxima com os instintos apurados, o coração sereno e os passos firmes na terra. Sem hesitar, ela abre a boca dele com as duas mãos, de forma que possa entrar novamente dentro do corpo do animal. Ao fazer isso, uma luz brilhante emerge do seu âmago, explodindo em múltiplas flores vermelhas que a envolvem como serpentes. Seus cabelos são desalinhados e ajeitados num penteado envolto por uma guirlanda de folhas e flores. Sua roupa é tecida novamente por milhares de gotículas de cristal no formato de um vestido branco drapeado. Sua pele é limpa por uma névoa aveludada. E, como uma deusa, ela segura a boca do Leão bem aberta até ele a comer outra vez.

Dessa vez, ela não desmaia. Encontra-se caída na calçada central da Cidade de Todos os Reinos com a respiração sincronizada e um peso estranho no pescoço. O Príncipe está na mesma posição de quando ela desapareceu na vacuidade, mas agora com uma expressão surpresa. Ela vê os olhos esmeralda do Leão desaparecerem no símbolo do infinito que paira luminoso sob sua cabeça, enquanto o cachorro de rua se aproxima dela com o rabo abanando. “O que aconteceu?”, questiona o Príncipe, “Você sumiu e voltou, com essa roupa…”.

A Louca se levanta da calçada, ajeitando sua coroa de flores e percebendo que o peso no seu pescoço se trata de um colar feito de garras de Leão. Ela sorri para o Príncipe e aceita pacientemente seu convite para conversarem no escritório da Torre. Em poucas horas, ela consegue receber seu dinheiro, sair do seu emprego, manter a amizade com o Príncipe, doar metade dos seus ganhos para a associação comunitária da cidade, comprar novos itens de viagem, ajudar com as entregas do dia, alimentar os cachorros de rua e seguir sua jornada em direção as Grandes Montanhas de Todos os Reinos. Ela jamais esquecerá de sua natureza instintiva descoberta na floresta obscura da barriga do Leão, porque agora seu caminho tem o poder do coração. 

Palavras-chave:

Confiança; Natureza Instintiva; Instintos; Paciência; Coragem; Harmonia; Sexualidade; Corpo; Compaixão; Compreensão; Generosidade; Persuasão; Força; Equilíbrio Ativo; Controle harmônico; Ambições; Animal que nos habita; Auto-valorização; Descoberta dos instintos; Coração; Acreditar em si; Poder

Frase de poder:

Eu confio na minha natureza instintiva e tenho coragem para agir com compaixão.

PRÓXIMA CARTA: O EREMITA

 

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