A Louca e O Imperador (IV)

theemperor

“O governante que deseja ficar acima do povo deve falar de si próprio como se estivesse abaixo. Caso deseje ficar à frente do povo deve conservar-se atrás. Assim, quando está acima, o povo não o considera uma carga; E, quando está à frente, o povo não o considera um estorvo” (Allan Watts sobre os monarcas para o taoísmo)

O castelo do Imperador está em partes coberto por uma névoa acinzentada, no alto de um penhasco, parecendo se entranhar e nascer da formação das rochas. A Louca o avista do belo caminho indicado pela Imperatriz enquanto está mais distraída do que nunca com o brilho do centeios refletidos pelo sol. O astro rei já está alto e sua barriga roncando quando é abordada por dois soldados reais. “O imperador solicita sua presença”, eles afirmam sem titubear, desviando-a para uma trilha de terra e pedras bronzita.

Sem entender bem porque raios sua presença é requisitada, a Louca os acompanha. A trilha vai se abrindo para um vilarejo gracioso, rodeado de casas de diferentes formatos e arquiteturas. Ali, ela pode perceber que as pessoas trabalham em várias funções, entretidas no serviço cotidiano. Os soldados param por alguns instantes para conversar com alguém do povoado a fim de recolher impostos reais. Depois, pedem para a Louca montar num dos cavalos que a leva ao topo do penhasco.

O Imperador a espera sentado no seu trono de bronze mesclado com ouro, vestindo um traje vermelho rubi com uma expressão sóbria e ardente. “Olá, bem vinda ao meu reino”, são suas palavras solenes enquanto a Louca entra no grandioso salão acompanhada de mais soldados. Atrás do trono, duas gárgulas no formato da cabeça de um rato seguram a imensa abertura da construção em formato retangular exibindo a paisagem de uma cordilheira de montanhas no horizonte. Ao se aproximar mais, a Louca se encanta e pode ver também o vilarejo, o jardim da Imperatriz e muito mais nas terras verdejantes penhasco abaixo.

“Olá, obrigada”, ela responde um pouco intimidada com a imponência ao seu redor. “Quero entender o que você está fazendo nas minhas terras. Todos que aqui habitam precisam ter uma função e se cadastrar no meu sistema de governança”, ele pronuncia claramente. “Oh, minha função é… andar por aí”, ela diz se dando conta do que fez desde que caiu no abismo. O silêncio entre os dois é interrompido pelo barulho das tochas que queimam nos cantos do ambiente.

“Vejo que você deve ter passado muito tempo no jardim da Imperatriz”, ele retruca mais sério do que antes. “Você sabe de onde vem as roupas da Imperatriz? As louças? As jóias? Os livros?”. “Da natureza?”, responde a Louca desconcertada. O Imperador dá um sorriso sem mostrar os dentes. “Tudo vem do nosso reinado. Eu e a Imperatriz escolhemos viver vidas separadas. Enquanto ela se delicia no jardim que criamos juntos, eu mantenho a ordem das coisas. Por isso, Louca, você precisa saber sua função se quiser continuar sua jornada”.

A Louca acha o Imperador autoritário demais. Quem é ele para falar o que ela deve ou não fazer? “Se você pensa que estou errado, vou lhe mostrar uma coisa”, continua ele se levantando agilmente e caminhando até o centro do ambiente, onde um disco de pedra emerge explosivamente do chão com o estalar dos dedos e, sob ele, vê-se um grande livro. A Louca chega perto para ler o que está escrito enquanto o Imperador passa as páginas sem parar de trás para frente. Conforme as folhas viram, as imagens ganham vida e revelam multidões morrendo de fome, doenças e aflições demoníacas. Enquanto isso, aparecem imagens da Imperatriz se banhando numa banheira de porcelana inundada de pétalas de rosa e pintando quadros nos campos de centeio.

“Eu amo minha Imperatriz”, diz o Imperador com os olhos cheios de lágrimas. “E ela é extremamente necessária para a ordem do mundo. Mas existem momentos que temos que colocar cada coisa no seu lugar de equilíbrio. Ela é a criação, eu sou a organização. Se ela não cuida da natureza, nosso reino morre. Mas se eu não ordeno as coisas, nada se constrói. Assim estamos vivendo por anos e pretendo continuar exercendo meu controle para que possamos todos prosperar”.

A Louca fica chocada com a explicação. Sua amiga Imperatriz vive num universo onde tudo é flores, sabores, cheiros e amores, mas a estrutura toda vem daquele castelo cravado nas pedras mais altas do reino. “Agora eu entendo, Senhor Imperador. Mas eu não posso ser falsa. Não sei qual é minha função. Na verdade, eu acho que cai do abismo porque precisava encontrá-la”. O Imperador contempla a janela do horizonte e a cadeia de montanhas com sua barba e sua roupa agora brilhando alaranjadas pela luz da tarde. “Eu acho que podemos te ajudar.”.

Ele se desloca até outro espaço do castelo, onde uma mesa está servida com uma refeição robusta feita de tubérculos, carnes e raízes, “Para mulheres e homens aguentarem os trabalhos do dia”, comenta ele. Depois de alimentados, ele pede que a Louca o ajude a organizar os impostos do dia em seu escritório, onde ambos ficam por horas.

Feito o minucioso serviço, ela o acompanha então na administração diária dos vários cômodos da sua morada, cada um com um tipo de estrutura: sala das impressões e publicações de livros, dos ourives, da corte judicial, das fornalhas dos pães, dos moinhos de vento, dos botânicos, da biblioteca pública, dos ferreiros, dos marceneiros, dos soldados, dos curandeiros, dos estudantes, dos artesãos, da produção de vinhos e hidromel…

“Você tem que administrar muita coisa!”, desabafa a Louca impressionada, quando um soldado chega correndo esbaforido com notícias de uma rebelião que acontece nas terras à leste do reino. “Sim, para que tudo se mantenha funcionando, é preciso estabelecer determinado controle. Porém, aprendi que a melhor forma de exercer autoridade é através da sabedoria. Você vai entender”. Os dois seguem entre os corredores do castelo e a Louca se perde na variedade de cômodos, até que atravessam um portal de pedra esverdeada que dá acesso à uma ponte dourada.

“Agora, você deve seguir sozinha, Louca. Espero que compreenda que, mesmo sem ter encontrado ainda sua função, é preciso disciplina e ordem para que as ideias se materializem na terra. Você me ajudou a organizar os impostos e viu com seus próprios olhos o quanto é preciso estruturar as coisas para que tudo se mantenha. As estruturas, todas elas, são necessárias para nossa sobrevivência física. No entanto, minha autoridade tem limites e eu sei deles pelo mesmo motivo que você saberá”. A Louca quebra o gelo e abraça o Imperador, sentindo-se envergonhada por ter julgado ele tão mal e admirando sua humildade.

“Siga esta ponte até a abóboda do outro lado. Lá, você vai encontrar alguém que pode te ajudar mais que eu nesse momento. Ele é o grande sábio que me ensinou sobre o equilíbrio da autoridade. É meu amigo e mestre, o Hierophante”, diz o Imperador segurando firmemente nos ombros dela, presenteando-a com uma pedra avermelhada brilhante. A Louca se despede de seu breve e impactante encontro, entendendo que precisa de limites, do contrário, será eternamente uma andarilha sem saber porque. Pisa firme na ponte, sentindo-se confiante e forte em direção a um novo encontro de sabedoria.      

Palavras-chave:

Estrutura; Autoridade; Confiança; Ação; Detalhes; Organização; Matéria; Sustentação; Equilíbrio; Ordem; Hierarquia; Sistematização; Minúcia; Trabalho; Razão; Fogo; Foco; Explicações; Segurança; Estratégia; Planejamento; Liderança; Limites;

Frase de Poder:

Eu estabeleço limites saudáveis para organizar todas as questões materiais – corpo, finanças, espaços – da minha vida.

Livros Consultados:

O Homem, a Mulher e a Natureza, por Allan Watts, 1954

Sites Consultados:

Learn Tarot

PRÓXIMA CARTA: O HIEROPHANTE

 

2 thoughts on “A Louca e O Imperador (IV)

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