Livro Expansão: O Homem, a Mulher e a Natureza

Livro Allan Watts

Encontrei Allan Watts na estante empoeirada da minha família, perdido entre aquelas coleções Nações do Mundo dos anos de 1980. Não sei porque raios ele me chamou atenção com uma capa tão sem graça, não sei porque minha família que não tem muito haver com filosofia tinha ele, não sei como ele sobreviveu a tantas mudanças de residência, mas sei que o destino nos uniu. Guardei ele nas minhas coisas e fui o carregando comigo como se fosse uma jóia preciosa, um conhecimento misterioso para eu desvendar um dia.

Só tive coragem de enfrentar a leitura alguns anos depois e, a cada página, brotava um insight profundo. Li e reli o livro umas quatro vezes, levei ele em muitas mudanças e fases de vida, e por isso ele está surrado, rabiscado, sujo e extremamente manuseado. É um sobrevivente do destino. Algumas épocas deixei sua sabedoria de lado, teimosa, boicotando o fato que aquela literatura precisava ser digerida, compreendida, aprofundada, experienciada.

O Homem, a Mulher e a Natureza foi escrito pelo filósofo Allan Watts nos anos de 1950 e publicado em 1958, pela Pantheon Books. O cara estava vivendo as transformações de consciência mundial que culminaram no movimento de contracultura e provavelmente colaborou para que tudo isso acontecesse. Tornou-se uma espécie de guru das filosofias orientais para seus contemporâneos e, vão por mim, suas palavras ecoam até hoje. Nesse livro, em especial, porque ele tem muitas publicações, ele conversa sobre a relação do homem e da mulher com a natureza através dos conhecimentos orientais, como o taoísmo, o zen-budismo e algumas outras linhas de budismo.

Parece algo “intelectual” demais? Ao contrário, a cada parágrafo Allan Watts libera uma lógica em erupção para que questionemos nosso modo de vida. Ele me parece tão atual porque hoje nosso estilo de viver tem matrizes culturais dos anos de 1950, especialmente na perspectiva que ele chama de “ordem mecânica do mundo”. O que ele quer dizer é que existe uma opção de ver a vida a partir da natureza relacional, que é o contrário da ideia de mecanicismo, esta que é rígida, austera, autoritária e controladora. E tudo bem escolher viver mecanicamente e artificialmente, afinal o livre arbítrio existe no universo. No entanto, ao escolher esta opção, as possibilidades de expansão da consciência, da alma, do corpo, são reduzidas.

Em suas palavras: “A natureza parece um mecanismo porque uma tal mentalidade somente lhe consegue aprender a parte que permite uma analogia mecânica ou matemática. Assim, na realidade, jamais se consegue ver a natureza, mas apenas um conjunto de formas geométricas que se conseguiu projetar sobre a mesma (…) Como os organismos vivos crescem de dentro para fora e não se comportam como os arquitetos e mecânicos que se conservam do lado de fora de suas obras, são, portanto, movidos pela espontaneidade interior e não por um princípio objetivo” (pp. 47).

Eu considero esse livro fantástico para questionarmos nosso modo de ver as coisas, em comparação com outras filosofias de base não-cristã. É claro que tem muita coisa que pode ser debatida, contraposta, retomada, porque algumas décadas se passaram desde que ele escreveu, mas não deixa de ser uma obra maravilhosa para vermos de uma forma diferente a sociedade e a natureza da qual nós somos em constante relação.

Beijos,

Júlia

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