7 dias nas montanhas sagradas dos Andes Peruanos

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Quando eu quis muito muito muito visitar Machu Picchu, não imaginava que este sítio arqueológico ficava num Vale Sagrado e que para eu chegar lá iria passar por tantos outros lugares fantásticos, incluindo vários dias na cidade de Cusco. Por isso, antes de subir as mágicas montanhas do patrimônio cultural da humanidade, fui me preparando energeticamente e entendendo cada vez mais da história dos povos pré-andinos em diversas cidades, sítios e povoados. Escrevo um relato sensível da minha viagem, com algumas dicas sinceras para os viajantes do mundo.

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Dia 1: “El Kindu da Coca es Sagrado”

Cheguei as 6h da manhã em Cusco, depois de uma noite um pouco chata no aeroporto de Lima devido à conexões desconexas. Deixei esse dia para me recuperar do sono e da soroche, nome dado para o mal estar da altitude, afinal eu voei de uma ilha até 3.399 metros sob o nível do mar. A tarde, aproveitei para conhecer o centro histórico, incluindo uma pequena volta na Praça das Armas e uma grande volta no Mercado Público San Pedro. Comprei um saco de folhas de coca por 2 soles, porque parecia item de sobrevivência local por ajudar a aliviar os sintomas da soroche. Pelas ruas, já pude perceber a história dos “incas” literalmente debaixo da história dos espanhóis, em função das imensas construções europeias sob bases outras. Também já amei as comidas que encontrava: quinoa, milho, banana, truta, temperos e cheiros deliciosos. Só que a soroche me pegou de jeito. Dor de cabeça, náuseas, fraqueza… fui dormir as 18h e recorri a medicina ocidental: tomei uma soroche pill. Acordei no outro dia as 6h.

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Dica: Não é todo mundo que tem problemas com a altitude e muitas vezes só o chá da coca alivia os sintomas. Mas sempre bom garantir um dia de descanso para entender se o seu corpo vai se adaptar as condições das montanhas. O segredo é respirar profundamente e amar as folhas de coca.

Dia 2: Pelo Centro Histórico

Minha guia espiritual-cultural-amiga-maravilhosa disse que os Andes estavam fazendo limpeza em mim, porque eu não estava nada bem e o banheiro foi amigo da madrugada. Mesmo assim, aproveitei a manhã para caminhar pela cidade, trocar dinheiro e conhecer o Mercado San Blás. Até onde pesquisei, o ideal é levar dólares e depois trocar eles por soles, a moeda local. O melhor lugar para fazer isso é na Avenida del Sol, porque ali as agências são confiáveis.

Caminhando e cantando, me perdi nas ruelas, mercados de artesanato e lojinhas, onde encontrei pau santo que queria muito comprar, até chegar no San Blás, outro mercado público, onde comi romãs frescos. Da friaca que fez de manhã, eu já estava suando com os casacos pendurados e o blusão amarrado na cintura, querendo arrancar minha bota de couro e colocar uma havaianas. Por volta do meio dia, comprei um boleto turístico por 47 dólares, que fica mais barato se você tem carteirinha de estudante e não esquecer ela como eu, o qual liberava a entrada para 10 sítios arqueológicos, um monte de museus e Igrejas.

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Depois de almoçar meu primeiro ceviche maravilhoso com maiz (um tipo de milho) perto da Praça das Armas, encontrei meu grupo de passeio do dia em frente à Catedral de Cusco, onde entramos para conhecer a engenhosidade sacra dos espanhóis e as resistências que os descendentes incas nos deixaram nas pinturas. Por exemplo, Jesus na Santa Ceia não compartilha pão e vinho e sim um porquinho da índia assado, carne típica da cultura andina. Sinceramente, é interessante ver as pinturas sacras do ponto de vista andino, mas achei a Igreja macabra e com energias densas. Fomos dali para Qorikancha, onde era o grande Templo do Sol e foi destruído pelos espanhóis para construção do Convento e Igreja de Santo Domingo. Algumas partes da estrutura inca ainda podem ser vistas, como o Templo do Arco Íris e das Estrelas. Mas precisa de um guia para explicar, porque senão parecem apenas pedras antigas muito bem esculpidas.

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O sol já estava me fazendo mais que suar quando pegamos o ônibus para subir outros sítios arqueológicos. A primeira parada foi Tambomachay, a 3.800 metros de altitude, onde eu precisei apelar e mastigar folhas de coca para conseguir fazer a caminhada e chegar até o Templo da Água. Naquele lugar o inca, imperador, passava por um retiro e preparo espiritual para poder governar. Não era qualquer coisa. Depois, fomos para Saqsayhuaman, o Templo do Sol. O sol estava se pondo quando chegamos, tornando ele tão bonito que eu nem ouvi o que a guia tinha para dizer e fiquei refletindo com as flores, a arquitetura, as montanhas, os mistérios que ali existiam. Por fim, entramos no espaço de rituais que fazia parte do complexo do sítio de Q’enqo e nos levaram para reconhecer lã de alpaca, porque tem muita roupa de alpaca fake que vendem na cidade. Naquelas alturas, eu estava afundada no sofá de couro da loja quase pedindo por resgate porque a soroche não me largava não. Desci para a cidade, coloquei todos os meus blusões, toucas e apetrechos de volta, tomei sopa, experimentei carne de alpaca – é bom -, comprei chips de yuca (mandioca) e fui para o hotel. Não consegui passar das 21h.

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Dicas:

É interessante conhecer o básico do centro histórico e as Igrejas falam muito sobre o contexto da conquista dos espanhóis. Eu achei super necessário? Não. Iria de novo para Machu Picchu? Sim, centenas de vezes. Entraria de novo na Basílica ou outra Igreja? Não, só se fosse pra ir ao banheiro.     

O pau santo foi o segundo item que comprei, depois das folhas de coca. É uma espécie de “incenso” de madeira. Significa “madeira sagrada”. Muitos usam como purificador espiritual ou em rituais. Sabia que usavam muito no xamanismo andino, e achei bem mais cheiroso e “fresco” dos que compro aqui. Encontrei numa das várias lojas místicas do bairro San Blás.

Na cidade, existem centenas de lojas de artesanato e vendedores ambulantes. O império de hoje não é mais o inca, nem o espanhol: a China está por tudo. Por isso, cuidado ao comprar roupas de alpaca, porque podem ser sintéticas, assim como a prata pode ser latão, entre outras coisitas duvidosas.

E o que eu achei do passeio compartilhado? Eu não gosto desse tipo de turismo, porque a guia vomita uma página de um livro e deixa 5 minutos para tirar fotos de forma desesperada e todo mundo sai correndo sem saber se experiencia o negócio ou se ajeita o foco da câmera. Eu optei em fazer esse tipo de passeio para poder me situar onde estava, especialmente no começo da viagem, porque alguma coisa sempre dá pra aproveitar. Se você tem um orçamento legal, sugiro investir num passeio privado com um guia indicado. Ou, sem tem mais tempo na cidade, vá de taxi aos lugares e leve um livro de história inca com você. 

Dia 3: Com licença, montanhas

Acordei sem sintomas da soroche! Entrei no táxi com minha guia particular muito feliz e partimos para aventuras no Vale Sagrado. Ela me contou tantas coisas no caminho, como, por exemplo, o fato que a região tem muitos terremotos e que as montanhas existem em todo o lugar porque um dia tudo aquilo foi oceano. Planeta fantástico. Por isso os quéchuas e povos pré-andinos tinham que ser muito ninjas nas suas construções: havia todo um probleminha geográfico para pensar. Desde que cheguei estava chocada com o tamanho das montanhas que emergiam no horizonte, já que em Floripa eu me contentava com o Cambirela.

Antes de entrarmos no Vale Sagrado, pedimos licença numa espécie de mirante que dava para ver o que eu acho que é a geleira de Sahauasiray. Chorei. Porque era lindo, porque era mágico e porque eu botei minhas mãos naquela terra e humildemente pedi para entrar.

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Chegamos em Morray por volta das 11h. Não esperava por aquilo. Diversas terraças faziam um desenho geométrico harmônico e muito verde. Era o local onde os quéchuas faziam experimentos agrícolas e que foram rastreados com 800 anos a.c. Daí comecei a entender a profundidade da cultura que todo mundo chama de inca, porque tinham raízes ancestrais demais. Morray tem uma força energética forte, afinal, o povo que levava um imperador para um retiro espiritual profundo antes de governar e que tinha trocentos mil templos e mitos espalhados estrategicamente pelas montanhas, provavelmente usava os experimentos agrícolas como algo além de observação: em Morray eram realizados rituais e cerimônias espirituais para Pacha Mamma.

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Saí dali muito feliz, um pouco porque as montanhas me encheram o coração e outro pouco porque minha guia fez um trabalho espiritual comigo no centro de uma das terraças que foi libertador, até chegar em outro lugar que me encheu então de paz, Maras, as salinas que também datam anos a.c. 5 mil salinas que até hoje são utilizadas e alimentadas por uma pequena fonte de água que vem salgada, possivelmente do passado oceânico da geografia da região. Comi ali a melhor banana frita e o melhor maiz frito da viagem, comprei sal, senti-me numa espécie de deserto bizarro e voltei para Cusco.

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Almocei numa cevicheria chamada El Tiburón e eu faço questão de indicar porque é um lugar de ceviche tradicional da cidade, ou seja, o tipo de restaurante que as pessoas locais provavelmente vão curtir no fim de semana. Não é só para turistas. Dali estava perto do Monumento Pachacuteq, uma masmorra de pedra que fica no centro de uma avenida, fora da parte do Centro Histórico. O monumento tá um pouco acabado – alô, governo do Peru! – mas tem uma vista bacana lá de cima. Voltei para o hotel caminhando e ganhando hemácias, jantei e finalmente consegui andar na noite de Cusco e sobreviver até umas 23h30.

Dicas

Quando você mergulha na cultura que restou dos incas e povos pré-andinos, percebe a relação, honra e respeito que eles tinham pelo meio ambiente. Por isso, por favor, peça licença aos locais que entrar, como as montanhas, os Vales, os sítios, porque aquilo estava ali muito antes de você chegar e vai ficar muito depois.

Nas salinas, tem o sal de maras pra comprar e eu super indico, porque, além de apoiar a associação dos camponeses que até hoje usam as salinas, leva um sal gostoso e nutritivo para casa. Eu, no caso, comprei um monte, carreguei no mochilão dias depois e não me arrependi.

Procurar restaurantes locais é ótimo, porque o centro histórico é feito para turistas. Os preços são para turistas, a comida é para turistas, as pessoas sorriem pensando em turistas.

O táxi é barato e dá pra negociar. Tem que chegar na janela e falar quanto você paga. Se o taxista reclamar, só falar mais forte e imponente o valor que você quer. Eles quase sempre topam. Lembre disso ao descer no aeroporto, porque os taxistas dali estão prontos pra meter a faca. Se não conseguir na porta do aeroporto, vai até a rua procurar outro. É pra dar 10 soles até o centro histórico se for de dia e 15 soles se for madrugada.

Dia 4: A riqueza da Pacha Mamma

Novamente, dia de passeio coletivo. Dessa vez, mais legal, porque saímos de manhã cedo para adentrar mais ainda o Vale Sagrado. Uma das vistas mais mágicas da viagem sem dúvidas foi a Cordilheira Oriental dos Andes, pertinho da Amazônia. O primeiro ponto de parada foi um centrinho comercial onde eu comi o melhor choclo (milho) cozido da viagem. Eu já estava indignada com a riqueza das comidas em sua maioria, orgânicas, por toda a região.

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Paramos no sítio arqueológico de Pisaq, onde foi encontrado mais de 2 mil tumbas de pessoas especiais – sacerdotes, sacerdotisas, imperadores, princesas – da sociedade quéchua em buracos espalhados pelas montanhas. Os objetos preciosos das tumbas, assim como os ossos, foram roubados pelos espanhóis. O sítio tinha também terraças gigantes, e, ao longo da viagem de ônibus pelo Vale, pude perceber que essas terraças estavam em vários lugares, de várias formas, ainda utilizadas pelos camponeses. Era uma tecnologia e tanto. Embaixo dos degraus, eles fizeram um sistema de fluxo de água, com camadas de pedra, areia, húmus trazido da Amazônia: engenharia hidráulica que até hoje funciona sem ter que construir máquinas a base de petróleo

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Levaram-nos para uma loja de prata, pois tem mina de prata ali perto, no centro de Pisaq e, depois de entender a diferença entre prata e latão, conhecer algumas das pedras da região – serpentina, obsidiana, lápis-lazuli – fugi do grupo e entrei no Mercado Público municipal, onde comprei morangos orgânicos a 10 soles o kilo. O melhor morango que já comi na vida. Recomendo fortemente.

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Depois de almoçar na região de Urubamba, fomos para Ollantaytambo, uma cidade que ainda tem casas incas originais, sendo que apenas os telhados são espanhóis. Subi as imensas escadarias do sítio arqueológico e foi um dos lugares mais mágicos da viagem, porque aquele lugar tem uma relação cósmica especial. Na montanha do outro lado, dois formatos de rosto humano aparecem na pedra: um de um guerreiro inca, Ollantay, e outro de Wiracocha, o profeta grande deus. Ao lado do perfil de Ollantay, a constelação das Plêiades emerge a noite e no solstício de 21 de junho é onde o sol nasce, iluminando o templo do sol que estava sendo construído no alto das escadarias. O templo foi abandonado, porque os espanhóis invadiram e até hoje as pedras se encontram largadas nos entornos do sítio.

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Nessa noite, dormi em Ollantaytambo e me perdi nas ruelas apertadas do vilarejo.

Dicas

Ollantaytambo é uma ótima cidade para dormir uma noite se você está fazendo o Vale Sagrado, porque dá para mergulhar ainda mais na cultura quéchua.

Dia 5: Das ruelas e cactus à paisagem encantada

Acordei cedo e tomei café da manhã na praça principal da cidade. Era o meu quinto dia na região de Cusco e ainda não tinha encontrado um café da manhã típico andino. Todos os lugares serviam pão, queijo, presunto e geleia industrialitos. Fui embora sem saber o que é um café da manhã andino e a experiência maravilhosa gastronômica que aquela região oferece deixa realmente a desejar nessa parte.

Entrei novamente no sítio arqueológico para explorar todos os cantos possíveis do complexo. Lá em cima, meditei, tirei um tarô, peguei um sol na minha pele seca e judiada do tempo louco da região. Saí dali metade da manhã para procurar frutas para comprar. Encontrei morangos frescos, banana frita e, para minha feliz surpresa, uma casa típica inca. Perguntei a manhã inteira onde encontrar uma delas, mas ninguém soube dizer. Era uma das únicas da cidade que ainda tem o telhado original, além das paredes, do chão, da estrutura interna, da criação de porquinhos da índia, caveiras das gerações ancestrais da residente e animais empalhados oferendados para Pacha Mamma.

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Feliz com a descoberta, almocei num restaurante ao lado do rio que corta a cidade, ajeitei as malas e parti para a estação de trem dentro de um radical tuque tuque. Estava encantada com a engenhosidade da cultura quéchua pelos vários detalhes que vi em Ollantaytambo, como os canais de água que escorrem em cada uma das ruas, os celeiros de alimentos colocados no alto das montanhas por ser mais arejado e ficar longe dos inimigos e das enchentes, as terraças de produção agrícola, a organização das casas em pequenas vilas, entre tantas outras coisas. Estava claro que aquela cultura era extremamente racional pois se relacionava com o ambiente de forma sustentável, algo que hoje nos custa tanto. Perguntava-me ao longo do dia: o que é progresso? E mais ainda, o que é tecnologia?

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O trem saiu as 16h com destino à Águas Calientes, a cidade que fica na base do sítio arqueológico de Machu picchu. Conforme o trem avançava, as paisagens desérticas de Ollantaytambo, com seus cactos e terras áridas, davam espaço para uma mata verde. No meio do percurso, a geleira de Wakay Wilque, também chamada de Veronica, deu as caras entre a neblina. Quanto mais me aproximava do ponto final, mais podia ver a selva verdejante brilhando entre as janelas. Essa transição me deu a sensação de estar adentrando um portal mágico de algo muito, muito encantado.

Sai do trem com um clima úmido tocando minha pele. Águas Calientes é envolta por grandes montanhas que tem pinta de floresta amazônica. A cidade tem diversas estátuas míticas espalhadas pelas ruelas e águas termais para mergulhar, que eu acabei não conhecendo. O que mais gostei dali é que praticamente não passam carros, o que torna a experiência de andar na cidade algo particular e sociável. Dormi cedo, porque no outro dia, acordaria muito cedo.

Dicas

Não existem muitas opções para chegar em Aguas Calientes senão pegar esse trem de uma empresa monopólio estrangeiro. Achei o bilhete caríssimo convertendo de dolares para reais, porque o serviço não é grandes coisa. Outra opção é fazer a famosa trilha inka, um caminho de hiking de 4 dias até chegar no alto das montanhas. Todas as pessoas que conversei que fizeram  acharam muito legal porém cansativo, o que não as permitiu curtir como queriam Machu Picchu, o ponto de chegada.

Se você for sair cedo para Machu Picchu, pesquise se o hotel serve café da manhã cedo. Isso pode ser um fator importante para a sobrevivência do dia.

A casa típica inca fica na rua Chaupi K’illu, entre a terceira e a quarta quadra à esquerda de quem sai da Plaza Mayor.

Dia 6: Caminhando sob os segredos e os portais energéticos

Enfim, Machu Picchu. Comprei o ticket do ônibus e peguei a fila com minha guia. Faria outro passeio “privado” com ela. Contornando as montanhas, o sol nasceu por detrás de Putucusi, a montanha que me fez chorar de emoção. O chororô não parou até subirmos o sítio pela trilha inca, respirarmos uma neblina mágica que contornava as montanhas iluminadas pelos feixes de sol nascente e passarmos a visão de Waynapicchu. Antes de entrarmos, agradecemos e pedimos humildemente a permissão para estar naquele espaço.

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Andamos por todo sítio, das oito da manhã até as 14h, parando de vez em quando para conversar, escutar histórias, meditar e principalmente contemplar. O sítio é muito maior que aquilo e Machu Picchu é apenas a maior montanha da região. Moravam ali não mais que 1000 incas, os quais desmancharam as trilhas que subiam até a cidade quando souberam que os espanhóis estavam ganhando o jogo e fugiram para o povoado de Vilcabamba. Porque esconder a cidade e fugir? Ninguém sabe. A cidade sagrada só foi oficialmente descoberta em 1914 por um figurão da National Geographic conduzido por um menininho andino que ia brincar no local. O que é incrível na cidade, no entanto, não são as ruínas e nem a engenhosidade, novamente absurdamente inteligente, dos seus construtores, mas algo a mais: existe algo inexplicável no ar, no horizonte, nas montanhas, na vegetação… algo que enche o coração de um mistério para quem está disposto a ouvi-lo.

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Quando o sol foi ficando mais forte e entramos na parte urbana da cidade, eu fiquei muito irritada. De repente, tudo o que eu queria era não estar mais ali. Sentamos para meditar num ponto que ficava alinhado com Machu Picchu, WaynaPicchu e Putucusi, as três montanhas que formam uma espécie de triângulo sagrado. Minha irritação foi passando e minha guia explicou. Os turistas. Não que eu não fosse uma também, mas a maioria dos turistas não tinham respeito pelo local que estavam. A atenção deles era superficial. As conversas eram altas, estridentes, chatas: grasnavam como patos. Aquele lugar tem que ser reconhecido pela força energética que tem, não apenas um conjunto de pedras bonitinhas de uma civilização bonitinha e inteligente. Meu coração estava revoltado e irritado. Contemplei novamente as montanhas, acalmei minha alma e segui em frente. Dei adeus para Machu Picchu e pedi para voltar ali em breve, com todas as forças do meu coração.

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Almocei em Aguas Calientes, peguei o trem de volta e depois um taxi para Cusco, acompanhada por raios e trovões que iluminaram a noite silenciosa. A soroche voltou, porque estava a 2.000 metros de altitude e voltei para os 3.399. Capotei.

Dicas

Se você quer ter uma experiência espiritual em Machu Picchu, procure um guia que trabalha com esse tipo de passeio e que seja sério. Do contrário, pode ser que a irritação tome conta de você também. Porque são mais de 5 mil turistas diários que caminham pelo sítio arqueológico. Os guias sérios tem credenciais pelo governo do Peru. Existem muitos charlatões nessa área, e você descobre eles especialmente pelos preços que cobram. Místico que é místico não torna a experiência de cura algo inacessível.

As filas para pegar o ônibus para Machu Picchu são gigantes entre as 5h e 6h, porque é o horário de quem vai subir Waynapicchu embarcar. As 7h30 as filas já aliviam, na baixa temporada, como quando eu fui, final de abril. Em junho/julho, as filas nunca diminuem, segundo o segurança local.

Os locais energéticos mais sagrados do sítio de Machu Picchu que pude conhecer foram: a pedra da Sacerdotisa que se encontra no caminho da trilha inca em direção a montanha de Machu Picchu, o observatório astronômico e o ponto estratégico que conecta as três montanhas, ambos dentro da parte urbana do sítio arqueológico. Mas só de estar ali com o coração e a intenção abertos, os trabalhos acontecem.  

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Dia 7: Em clima de despedida

No dia de dar adeus, comprei muitos presentes que consistiram basicamente em comidas gostosas: chocolate, caramelos de coca, maiz, bananas fritas, pisco, oleaginosas… encontrados no Mercado San Pedro e no Mercado de Artesanato Municipal. Deixei para comprar uma caneca nas lojas chiques do aeroporto de Lima, porque amei ela desde que cheguei e estava guardando os soles para isso.

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Também fui conhecer museus, o Museu do Sítio de Qorikancha que – alô governo do Peru! – tá bem acabado, mas é onde pude ver três múmias incas, em posição fetal para a vida após a morte. Depois fui ao Museu Machu Picchu, que tem várias coisas encontradas nesse sítio, apesar de que grande parte dos itens foram levados para a Universidade de Yale ao longo do século XX. Esse museu tá super bem conservado.

Perto do meio dia, fui ao Templo da Lua de taxi para conhecer. Ele é aberto ao público e é o templo mais diferentão que conheci, porque não tem um formato geométrico claro como tem o templo do sol, por exemplo. Isso porque o significado da lua é relacionado com a noite, o que é oculto, as emoções e os sentidos instintivos, que não são tão organizados e claros como a energia do sol. Amei a paisagem onde o templo se encontra, envolto por plantações de trigo douradas e senti uma energia muito forte nesse templo, de transmutação e vida-morte-vida. Ali, observando a relva verde que cobria as montanhas, entendi que tudo se trata de simplicidade e minha jornada acabava leve e feliz.

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Dei adeus aos Andes com um aperto no coração e já tenho saudades. Espero voltar em breve.

 

Beijos estelares,

Júlia

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